sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Aula 20 - Acho que fiquei com nota vermelha

Os amigos que tentaram acmpanhar este blog desde seu início, embarcando nas desventuras a que ele, por meio de seu editor, se propôs, sabem que o final do ano letivo foi um tanto melancólico. No começo, pretendia postar semanalmente sobre experiências em sala de aula, além de compartilhar com os leitores o material produzido pelos alunos ao longo do ano letivo. No primeiro semestre tudo funcionou de maneira consideravelmente boa, até que no início do segundo semestre o período de greve parece ter esfriado o ímpeto deste que digita. Não culpo a greve pelo acontecido, longe disso, mas desacelerei o pique que tinha se estabelecido na primeira parte do ano, postei durante o período da paralisação, mas o retorno foi deveras complicado. Muita coisa pra se acertar, calendarios a definir, provas, trabalhos, semanas científicas, tudo colado, muito perto e o Natal batendo na porta... O Diário de Classe sucumbiu no tempo. Dessa forma, creio ter sido reprovado por faltas e perdido meu projeto do início do ano, que era gerar uma material sequencial sobre a experiência de lecionar. Como não consegui realizar o intento a gosto, vejo que fiquei reprovado e estou pensando se saio da escola ou se no ano que vem tento de novo. No mais, um muito obrigado atodos que apareceram por aqui ao menos uma vez e boas festas!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Aula 19 - Vai ter aula professor? Vai sim!!!

Pessoal, após quase dois meses de paralisação por conta da greve dos professores e funcionários federais as aulas retornam oficialmente amanhã. Apesar de compreender os motivos que levam uma categoria a fazer greve e lutar por seus direitos, confesso que estava com muita saudade do trabalho. Acho que já devo ter deixado escapar aqui que lecionar foi uma escolha pautada, principalmente, na satisfação pessoal que a profissão me proporciona. Foram dias longos, de muita espera e apreensão pelos caminhos da greve e pelo retorno das aulas, mas agora, ainda que não tenhamos conquistado tudo o que nossa pauta reivindicava, não só para a categoria, mas para a educação federal como um todo, retornamos ao trabalho com a esperança de que este hiato não prejudique os alunos na reposição de aulas e não interfira no processo ensino-aprendizagem como um todo. No mais, amanhã já estamos em sala de aula e sexta já tem teste, rs. Para coroar este post do retorno, lembrando da recente apresentação no Rock in Rio, segue Coldplay:

sábado, 17 de setembro de 2011

Aula 18: Se outubro vier, que venha armado!

O título deste post é uma apropriação leve de um dos mais conhecidos versos de Mano Brown do Racionais Mc's, grupo de Rap e Hip-Hop paulista que desde os anos oitenta mudou os caminhos da escrita da música brasileira. Os Racionais conseguiram conciliar uma linguagem própria às reivindicações e denúncias sociais, sem esquecer em nenhum momento que a escrita literária é, antes de tudo, uma escrita criativa. Após o estrondoso sucesso de "Sobrevivendo no inferno", disco de 1997, a partir do qual o grupo se tornou conhecido do grande público e da grande mídia. Felizmente Mano Brown, Edy Rock, Ice Blue e KL Jay não aceitaram o assédio dos grandes veículos de reprodução e comunicação musical que, certemente, tentariam pasteurizar o som e, principalmente, a escrita dos integrantes do grupo. "Sobrevivendo" atingiu 1 milhão de cópias vendidas numa época em que o comércio dos cd's piratas era muito mais intenso, o que nos leva crer que os sucessos "Diário de um detento", "Fórmula mágica da paz", "Cap. IV, Versículo 3" e "Mágico de oz" foram ouvidos, cantados e, porque não dizer, consumidos por pelo menos três milhões de pessoas em todo Brasil. O videoclipe de "Diário de um detento" venceu o MTV Video Music Brasil e foi exibido (trecho) no MTV Awards, foi gravado no presídio do Carandiru e escrito a partir de depoimentos de presos (em específico um) que viveram a invasão brutal da polícia de São Paulo na rebelião que acabou com 111 mortos. Sem ceder aos apelos da grande mídia que queria lucrar em cima do sucesso alcançado por um grupo formado por jovens da periferia paulista e que tinha conquistado às custas do próprio trabalho e de suas convicções o respeito e a adoração de milhares de fãs que se identificavam com suas mensagens e posturas, os Racionais seguiram sua estrada sem ignorar os trabalhos anteriores ao aclamado "Sobrevivendo" e, como todo grande artista que se preze em qualquer área de criação, evoluindo na parte musical e literária de sua produção. Em entrevista recente para a revista Rolling Stone, Mano Brown falava justamente que percebeu que as coisas não precisavam mais ser ditas tão diretamente, em tom de ordem, mas que poderiam estar embutidas no contexto, de forma mais artística. Assim o trabalho posterior "Nada como um dia atrás do outro" (2002), trazia uma cardápio variado nas composições e nas melodias o que fez com que o disco fosse novamente elogiado pelos críticos. Com sucessos que passaram a integrar a vida das pessoas como "Vida Loka I" e "Vida Loka II", "Estilo Cachorro", "Jesus Chorou" e "Negro drama", os Racionais voltaram a realçar sua importância no cenário musical brasileiro, além de se manterem fiéis ao público que os acompanha quase em profissão de fé.
Os Racionais Mc's já fazem parte daquilo que consideramos como MPB, seja pelo viés do agrupamento de tudo que é produzido no Brasil, seja pelo viés da qualidade e da influência que sua escrita e musicalidade têm para o espaço social brasileiro. De valor literário inquestionável e com alguns trabalhos acadêmicos já produzidos sobre perspectivas de sua obra, o grupo da periferia paulista, que exalta a zona leste de sua cidade e representa sem medo uma parte da população esquecida por muitos anos e que acabou produzindo um conceito paralelo de sociedade e humanidade, muito mais próximo de sua realidade que o dos livros de antropologia e ciências sociais, promete para breve novo lançamento musical que aguardamos, neste blog, com muita ansiedade.
Trabalho com as letras do grupo em minhas aulas, tanto na parte literária quanto na análise da construção de uma linguagem muito mais social do que normativa. É rui reparar que alguns cidadãos tão jovens ainda têm certo preconceito linguístico e social com determinadas questões, mas alegria de ver a surpresa da maioria ao trabalharmos com tais canções é sempre muito mais atraente e produtiva. Muitos de meus alunos já conhecem o grupo e suas principais canções o que torna mais interessante o trabalho, já que eles entendem que algo que é condenad por muitos como "marginal" (no sentido de estar à margem e não ser necessário no conhecimento escolar) é construido de maneira tão rica e sobre uma realidade desconfortante. Fique com alguns dos clipes/músicas que mais gosto do Racionais:




domingo, 4 de setembro de 2011

Aula 17 - Professor vai ter visita técnica?




Bom dia leitores. Ontem, passeando com minha esposa, passei em frente ao CCBB e lembrei da proposta de visita técnica que havia encaminhado à direção para levar as turmas de terceiro período ao museu, o décimo quarto mais visitado do mundo. Iríamos ver a exposição "I'm a clichê - ecos da estética punk" que trata das extensões estéticas da cultura punk e como ainda estão presentes em nossa sociedade. Creio que seria uma boa oportunidade para que os alunos conhecessem este museu, além de termos contato com uma cultura que é tão presente em seus gostos, atitudes e hábitos. Enfim, seria um boa oportunidade, mas não será mais. Pode parecer um tanto quanto egoísta este pensamento, mas oportunidades não esperam o melhor momento para acontecer, infelizmente. De qualquer forma, esse post ficou curto, como a lamentação do não poder mais, logo deixo vocês com um vídeo dos ingleses do Sex Pistols, ícones do Punk Rock e um vídeo amador do museu. Abrsaço a todos!



sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Aula 16: "Vai ter aula professor?" 2 - A missão



Pois é, a greve continua, a luta continua e as aulas não continuam. Não continuam na prática, na escola, mas aqui no diário de classe elas continuam. Claro que sem todas as formalidades de um curso regular, mas com o mesmo empenho em selecionar o material e as indicações para os alunos. Então, hoje iremos intensificar nosso período de paralisação com algumas dicas que seguem a regra do Carpe Diem, ou aproveite o dia em tradução quase literal. A expressão latina, muito utilizada como lema pelos autores e pensadores do período árcade no Brasil, e no neoclassicismo na europa, funcionou, na verdade, como uma crítica ao pensamento cristão, ainda muito contaminado por vestígios da idade média recuperados pela Inquisição, que pregava que todos os seus atos na terra seriam julgados no dia do juízo e você iria para o inferno se não fosse um bom menino. Mais ou menos dizer que se você não for um bom menino Papai Noel não traz presente pra você no natal. Neste sentido, o Carpe Diem funcionou como um escape destas amarras religiosas e como uma afirmação da razão sobre a fé, o que incluia, neste caso, uma valorização da figura do homem perante a figura divina. Aproveitar o dia, portanto, era viver a vida do seu jeito, sobre seu próprio juízo, sem condicionar seus atos a uma crença ou religião qualquer que fosse. Não a toa os árcades/neoclassicistas recuperaram a cultura greco-latina, incluindo sua religião politeísta e exaltou em muitos momentos os deuses do Olimpo. Hoje, em mais um post de greve, este blog traz referências contemporâneas do Carpe Diem, que devem ser experimentadas por todos. Seguem as dicas:


1. Save Ferris: O filme é um clássico dos anos oitenta, figurinha carimbada da sessão da tarde e se tornou um filme cult por conseguir sintetizar os anseios de uma geração em um personagem debochado e muito divertido. Vale a pena conferir para quem nunca assistiu e quem ja viu deve ver de novo:



2. Essa é mais recente, mas também vem do cinema. Um grupo de amigos resolve viajar para Las Vegas com a finalidade de fazer uma despedida de solteiro para o que se casa em poucos dias. Como já estamos cansados de saber, nada que se vai fazer em Las Vegas, no cinema, tem um final tranquilo...



3. Por fim, uns menininhos muito inteligentes, politicamente corretos e com muita educação que conseguem transformar uma cidade do interior do Colorado em um verdadeiro espetáculo da vida humana. Com vocês South Park:



sábado, 20 de agosto de 2011

Aula 15: Vai ter aula professor?



A greve é um direito constitucional do trabalhador e serve como ferramenta de reivindicação em casos extremos de insatisfação, seja com a remuneração salarial, as condições de trabalho ou mesmo a conjuntura sócio-política de um determinado momento. Portanto todo movimento de greve é um movimento de luta, com caráter ideológico e reivindicatório. O fato de se ter este dispositivo como um direito legal demonstra os avanços que nossa sociedade conquistou ao longo do século XX, principalmente com relação aos trabalhadores. Talvez a última prova disto tenha sido a eleição e a reeleição de Lula como presidente, um dos maiores líderes sindicais de nosso país.
Pois bem, a greve é um direito e direito se exerce ou não. Este é um outro ponto. Aderir a um movimento grevista representa das duas uma: ou a afinação ideológica com o movimento que se forma, ou o desejo de, mesmo não tão favorável às diretrizes do movimento, auxiliar os demais nas lutas de sua categoria. Porém há greves e greves e paralisar áreas como educação e saúde é sempre complicado, pois lidamos com pessoas, seja com os alunos/pacientes, seja com seus pais/parentes. O ponto então é o seguinte: há como exercer o direito de greve sem causar traumas? A resposta é tão simples quanto a pergunta: Não! E devemos compreender que, neste caso, os traumas devem ser minimizados ao máximo, principalmente com relação aos alunos. A prática da docência é também uma prática de negociação constante, apesar de alguns professores ainda terem como imagem de sua profissão o autoritarismo e a relutância em ouvir. Repor as aulas paralisadas em um período em que aconteceriam as férias é o menor dos fatores que envolvem esta equação. Na verdade, o que importa é como estas aulas serão repostas? Que critérios serão levados em consideração para as avaliações após a retomada das aulas? De que maneira agiremos com nossos alunos durante o processo de greve? Levaremos em conta as peculiaridades de estudar durante o que seriam as férias e atenuaremos em nosso respectivo trabalho questões práticas como o calor e a reprogramação familiar do aluno?
Sim, são só perguntas. São questionamentos de uma mente inquieta que vive pela primeira vez uma greve do lado de quem a faz e não de quem a sofre. Fui aluno de graduação do curso de letras na UFF durante a Era FHC e vivi uma das maiores greves de professores das Universidades Federais de todos os tempos. O vestibular foi adiado, nosso período letivo que terminaria em dezembro acabou em março, alguns professores encerraram suas aulas quase dois meses antes do término da reposição pois tinham viagens marcadas. Outros dobraram a carga horária para dar conta do conteúdo no prazo previsto... Por isso, confesso que é difícil responder a um aluno quando pergunta se teremos aula ou não. É difícil, para mim, ver um olhar desapontado, pois o período mal começou e já não se tem aulas... é difícil... mas a greve já foi deflagrada e, de minha parte, todas as ações que seguem a este fato serão conduzidas por uma única diretriz: prejudicar o mínimo possível os alunos. Até a aula 16, quem sabe com aula!


domingo, 14 de agosto de 2011

Aula14: Politicamente (in)correto

Tenho feito algumas pesquisas sobre os anos 80 para nosso projeto da SEMATEC e sempre me deparo com uma mesma pergunta na cabeça quando termino de ver uma cena ou ouvir uma música da época: “Será que isso seria taxado de preconceituoso ou politicamente incorreto se fosse feito hoje?”
Parece uma bobagem me perguntar isso, mas cada vez mais percebemos que há um anacronismo no comportamento de nossa sociedade. Vamos materializar isto em exemplos começando pelo “inocente” humorístico dos trapalhões (desde os anos 70). Didi, Dedé, Mussum e Zacarias povoavam nosso domingo com piadas e esquetes de humor que satirizavam minorias, enalteciam determinados comportamentos, valorizavam a esperteza em detrimento dos formalismos, etc. Falando assim, com a frieza estúpida das letras, pode parecer um show de horrores, mas o programa (que era excelente aliás) era indicado como livre, sem taxação de faixa etária e assistido por milhares de crianças pelo país a fora.



Outro forte viés neste sentido é o musical. Devemos ressaltar que se tratava de um período de transição política e que tal fato impulsionou uma geração inteira de contestadores, principalmente no movimento pop-rock que se construiu ao longo da citada década. Vamos destacar em especial algumas músicas para entender a questão. Os paulistas do Ultraje a rigor talvez sejam os mestres na arte da contestação debochada e é de sua obra que trago duas músicas: “Sexo!” e “Eu gosto é de mulher!”. Na primeira, temos uma ode ao ato sexual que passa, inicialmente, por uma crítica aberta e direta à censura ainda em vigor no país e segue questionando o que realmente é imoral, comparando grandes problemas da época como a guerra espacial, o terrorismo, a inflação estratosférica e a corrupção com a nudez e o fato de se censurar as referências sexuais na tv e no cinema. Já em “Eu gosto é de mulher!” a letra dialoga com duas questões que poderiam vir a ser criticadas hoje: a exaltação da mulher como um ser desejado e (quem sabe) ser considerada uma letra homofobica, apesar de um meã culpa que Roger faz em alguns versos ao dizer que “tem amigos gays”. O fato é que não sei se as duas não seriam atacadas hoje, como aconteceu com Tiririca com relação a um suposto preconceito racial na música “Veja os cabelos dela”. Os motivos que nos levam a certos tipos de censura hoje, pela centelha luminosa do ser politicamente correto, do estar inserido nos preceitos morais, são mais diversos que os que abastecem a famosa “censura cega”; mas uma “censura da óculos” também não é uma censura?




O que mais tem me assustado em todo este processo é que os novos limites do que se pode e de como se pode dizer tem despertado um conservadorismo voraz que, não me parece tardar, instaurará uma crise de convivência de valores e ideologias na sociedade. Os movimentos históricos nos ensinam que o comportamento do homem se move em ciclos, que vem e vão de acordo com circunstâncias que, muitas vezes, fogem do seu próprio controle. O respeito à diversidade racial, cultural, regional, sexual e religiosa sempre será uma bandeira de todos os cidadãos conscientes e minimamente responsáveis por suas atitudes e gestos, porém, a própria roda da História nos mostra que tal respeito sempre se conquistou por conscientização e nunca por força. Censura é força, gera medo, receio ao segurar a caneta, ao entoar algum canto novo no microfone... enquanto até a mulher maravilha dá uma fugidinha com o superman e ninguém acha ruim, eu vou seguindo no meu ônibus Volta Redonda – Rio, pensando se terá algum problema incluir músicas tão irresponsáveis como “Eu gosto é de mulher!”, “Sexo!”, “Amante profissional”, “Calúnias”, “Meninos e meninos”, “Polícia”, dentre tantas outras, no setlist que alunos executarão como parte do projeto. Por hora é só!