sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Aula 20 - Acho que fiquei com nota vermelha

Os amigos que tentaram acmpanhar este blog desde seu início, embarcando nas desventuras a que ele, por meio de seu editor, se propôs, sabem que o final do ano letivo foi um tanto melancólico. No começo, pretendia postar semanalmente sobre experiências em sala de aula, além de compartilhar com os leitores o material produzido pelos alunos ao longo do ano letivo. No primeiro semestre tudo funcionou de maneira consideravelmente boa, até que no início do segundo semestre o período de greve parece ter esfriado o ímpeto deste que digita. Não culpo a greve pelo acontecido, longe disso, mas desacelerei o pique que tinha se estabelecido na primeira parte do ano, postei durante o período da paralisação, mas o retorno foi deveras complicado. Muita coisa pra se acertar, calendarios a definir, provas, trabalhos, semanas científicas, tudo colado, muito perto e o Natal batendo na porta... O Diário de Classe sucumbiu no tempo. Dessa forma, creio ter sido reprovado por faltas e perdido meu projeto do início do ano, que era gerar uma material sequencial sobre a experiência de lecionar. Como não consegui realizar o intento a gosto, vejo que fiquei reprovado e estou pensando se saio da escola ou se no ano que vem tento de novo. No mais, um muito obrigado atodos que apareceram por aqui ao menos uma vez e boas festas!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Aula 19 - Vai ter aula professor? Vai sim!!!

Pessoal, após quase dois meses de paralisação por conta da greve dos professores e funcionários federais as aulas retornam oficialmente amanhã. Apesar de compreender os motivos que levam uma categoria a fazer greve e lutar por seus direitos, confesso que estava com muita saudade do trabalho. Acho que já devo ter deixado escapar aqui que lecionar foi uma escolha pautada, principalmente, na satisfação pessoal que a profissão me proporciona. Foram dias longos, de muita espera e apreensão pelos caminhos da greve e pelo retorno das aulas, mas agora, ainda que não tenhamos conquistado tudo o que nossa pauta reivindicava, não só para a categoria, mas para a educação federal como um todo, retornamos ao trabalho com a esperança de que este hiato não prejudique os alunos na reposição de aulas e não interfira no processo ensino-aprendizagem como um todo. No mais, amanhã já estamos em sala de aula e sexta já tem teste, rs. Para coroar este post do retorno, lembrando da recente apresentação no Rock in Rio, segue Coldplay:

sábado, 17 de setembro de 2011

Aula 18: Se outubro vier, que venha armado!

O título deste post é uma apropriação leve de um dos mais conhecidos versos de Mano Brown do Racionais Mc's, grupo de Rap e Hip-Hop paulista que desde os anos oitenta mudou os caminhos da escrita da música brasileira. Os Racionais conseguiram conciliar uma linguagem própria às reivindicações e denúncias sociais, sem esquecer em nenhum momento que a escrita literária é, antes de tudo, uma escrita criativa. Após o estrondoso sucesso de "Sobrevivendo no inferno", disco de 1997, a partir do qual o grupo se tornou conhecido do grande público e da grande mídia. Felizmente Mano Brown, Edy Rock, Ice Blue e KL Jay não aceitaram o assédio dos grandes veículos de reprodução e comunicação musical que, certemente, tentariam pasteurizar o som e, principalmente, a escrita dos integrantes do grupo. "Sobrevivendo" atingiu 1 milhão de cópias vendidas numa época em que o comércio dos cd's piratas era muito mais intenso, o que nos leva crer que os sucessos "Diário de um detento", "Fórmula mágica da paz", "Cap. IV, Versículo 3" e "Mágico de oz" foram ouvidos, cantados e, porque não dizer, consumidos por pelo menos três milhões de pessoas em todo Brasil. O videoclipe de "Diário de um detento" venceu o MTV Video Music Brasil e foi exibido (trecho) no MTV Awards, foi gravado no presídio do Carandiru e escrito a partir de depoimentos de presos (em específico um) que viveram a invasão brutal da polícia de São Paulo na rebelião que acabou com 111 mortos. Sem ceder aos apelos da grande mídia que queria lucrar em cima do sucesso alcançado por um grupo formado por jovens da periferia paulista e que tinha conquistado às custas do próprio trabalho e de suas convicções o respeito e a adoração de milhares de fãs que se identificavam com suas mensagens e posturas, os Racionais seguiram sua estrada sem ignorar os trabalhos anteriores ao aclamado "Sobrevivendo" e, como todo grande artista que se preze em qualquer área de criação, evoluindo na parte musical e literária de sua produção. Em entrevista recente para a revista Rolling Stone, Mano Brown falava justamente que percebeu que as coisas não precisavam mais ser ditas tão diretamente, em tom de ordem, mas que poderiam estar embutidas no contexto, de forma mais artística. Assim o trabalho posterior "Nada como um dia atrás do outro" (2002), trazia uma cardápio variado nas composições e nas melodias o que fez com que o disco fosse novamente elogiado pelos críticos. Com sucessos que passaram a integrar a vida das pessoas como "Vida Loka I" e "Vida Loka II", "Estilo Cachorro", "Jesus Chorou" e "Negro drama", os Racionais voltaram a realçar sua importância no cenário musical brasileiro, além de se manterem fiéis ao público que os acompanha quase em profissão de fé.
Os Racionais Mc's já fazem parte daquilo que consideramos como MPB, seja pelo viés do agrupamento de tudo que é produzido no Brasil, seja pelo viés da qualidade e da influência que sua escrita e musicalidade têm para o espaço social brasileiro. De valor literário inquestionável e com alguns trabalhos acadêmicos já produzidos sobre perspectivas de sua obra, o grupo da periferia paulista, que exalta a zona leste de sua cidade e representa sem medo uma parte da população esquecida por muitos anos e que acabou produzindo um conceito paralelo de sociedade e humanidade, muito mais próximo de sua realidade que o dos livros de antropologia e ciências sociais, promete para breve novo lançamento musical que aguardamos, neste blog, com muita ansiedade.
Trabalho com as letras do grupo em minhas aulas, tanto na parte literária quanto na análise da construção de uma linguagem muito mais social do que normativa. É rui reparar que alguns cidadãos tão jovens ainda têm certo preconceito linguístico e social com determinadas questões, mas alegria de ver a surpresa da maioria ao trabalharmos com tais canções é sempre muito mais atraente e produtiva. Muitos de meus alunos já conhecem o grupo e suas principais canções o que torna mais interessante o trabalho, já que eles entendem que algo que é condenad por muitos como "marginal" (no sentido de estar à margem e não ser necessário no conhecimento escolar) é construido de maneira tão rica e sobre uma realidade desconfortante. Fique com alguns dos clipes/músicas que mais gosto do Racionais:




domingo, 4 de setembro de 2011

Aula 17 - Professor vai ter visita técnica?




Bom dia leitores. Ontem, passeando com minha esposa, passei em frente ao CCBB e lembrei da proposta de visita técnica que havia encaminhado à direção para levar as turmas de terceiro período ao museu, o décimo quarto mais visitado do mundo. Iríamos ver a exposição "I'm a clichê - ecos da estética punk" que trata das extensões estéticas da cultura punk e como ainda estão presentes em nossa sociedade. Creio que seria uma boa oportunidade para que os alunos conhecessem este museu, além de termos contato com uma cultura que é tão presente em seus gostos, atitudes e hábitos. Enfim, seria um boa oportunidade, mas não será mais. Pode parecer um tanto quanto egoísta este pensamento, mas oportunidades não esperam o melhor momento para acontecer, infelizmente. De qualquer forma, esse post ficou curto, como a lamentação do não poder mais, logo deixo vocês com um vídeo dos ingleses do Sex Pistols, ícones do Punk Rock e um vídeo amador do museu. Abrsaço a todos!



sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Aula 16: "Vai ter aula professor?" 2 - A missão



Pois é, a greve continua, a luta continua e as aulas não continuam. Não continuam na prática, na escola, mas aqui no diário de classe elas continuam. Claro que sem todas as formalidades de um curso regular, mas com o mesmo empenho em selecionar o material e as indicações para os alunos. Então, hoje iremos intensificar nosso período de paralisação com algumas dicas que seguem a regra do Carpe Diem, ou aproveite o dia em tradução quase literal. A expressão latina, muito utilizada como lema pelos autores e pensadores do período árcade no Brasil, e no neoclassicismo na europa, funcionou, na verdade, como uma crítica ao pensamento cristão, ainda muito contaminado por vestígios da idade média recuperados pela Inquisição, que pregava que todos os seus atos na terra seriam julgados no dia do juízo e você iria para o inferno se não fosse um bom menino. Mais ou menos dizer que se você não for um bom menino Papai Noel não traz presente pra você no natal. Neste sentido, o Carpe Diem funcionou como um escape destas amarras religiosas e como uma afirmação da razão sobre a fé, o que incluia, neste caso, uma valorização da figura do homem perante a figura divina. Aproveitar o dia, portanto, era viver a vida do seu jeito, sobre seu próprio juízo, sem condicionar seus atos a uma crença ou religião qualquer que fosse. Não a toa os árcades/neoclassicistas recuperaram a cultura greco-latina, incluindo sua religião politeísta e exaltou em muitos momentos os deuses do Olimpo. Hoje, em mais um post de greve, este blog traz referências contemporâneas do Carpe Diem, que devem ser experimentadas por todos. Seguem as dicas:


1. Save Ferris: O filme é um clássico dos anos oitenta, figurinha carimbada da sessão da tarde e se tornou um filme cult por conseguir sintetizar os anseios de uma geração em um personagem debochado e muito divertido. Vale a pena conferir para quem nunca assistiu e quem ja viu deve ver de novo:



2. Essa é mais recente, mas também vem do cinema. Um grupo de amigos resolve viajar para Las Vegas com a finalidade de fazer uma despedida de solteiro para o que se casa em poucos dias. Como já estamos cansados de saber, nada que se vai fazer em Las Vegas, no cinema, tem um final tranquilo...



3. Por fim, uns menininhos muito inteligentes, politicamente corretos e com muita educação que conseguem transformar uma cidade do interior do Colorado em um verdadeiro espetáculo da vida humana. Com vocês South Park:



sábado, 20 de agosto de 2011

Aula 15: Vai ter aula professor?



A greve é um direito constitucional do trabalhador e serve como ferramenta de reivindicação em casos extremos de insatisfação, seja com a remuneração salarial, as condições de trabalho ou mesmo a conjuntura sócio-política de um determinado momento. Portanto todo movimento de greve é um movimento de luta, com caráter ideológico e reivindicatório. O fato de se ter este dispositivo como um direito legal demonstra os avanços que nossa sociedade conquistou ao longo do século XX, principalmente com relação aos trabalhadores. Talvez a última prova disto tenha sido a eleição e a reeleição de Lula como presidente, um dos maiores líderes sindicais de nosso país.
Pois bem, a greve é um direito e direito se exerce ou não. Este é um outro ponto. Aderir a um movimento grevista representa das duas uma: ou a afinação ideológica com o movimento que se forma, ou o desejo de, mesmo não tão favorável às diretrizes do movimento, auxiliar os demais nas lutas de sua categoria. Porém há greves e greves e paralisar áreas como educação e saúde é sempre complicado, pois lidamos com pessoas, seja com os alunos/pacientes, seja com seus pais/parentes. O ponto então é o seguinte: há como exercer o direito de greve sem causar traumas? A resposta é tão simples quanto a pergunta: Não! E devemos compreender que, neste caso, os traumas devem ser minimizados ao máximo, principalmente com relação aos alunos. A prática da docência é também uma prática de negociação constante, apesar de alguns professores ainda terem como imagem de sua profissão o autoritarismo e a relutância em ouvir. Repor as aulas paralisadas em um período em que aconteceriam as férias é o menor dos fatores que envolvem esta equação. Na verdade, o que importa é como estas aulas serão repostas? Que critérios serão levados em consideração para as avaliações após a retomada das aulas? De que maneira agiremos com nossos alunos durante o processo de greve? Levaremos em conta as peculiaridades de estudar durante o que seriam as férias e atenuaremos em nosso respectivo trabalho questões práticas como o calor e a reprogramação familiar do aluno?
Sim, são só perguntas. São questionamentos de uma mente inquieta que vive pela primeira vez uma greve do lado de quem a faz e não de quem a sofre. Fui aluno de graduação do curso de letras na UFF durante a Era FHC e vivi uma das maiores greves de professores das Universidades Federais de todos os tempos. O vestibular foi adiado, nosso período letivo que terminaria em dezembro acabou em março, alguns professores encerraram suas aulas quase dois meses antes do término da reposição pois tinham viagens marcadas. Outros dobraram a carga horária para dar conta do conteúdo no prazo previsto... Por isso, confesso que é difícil responder a um aluno quando pergunta se teremos aula ou não. É difícil, para mim, ver um olhar desapontado, pois o período mal começou e já não se tem aulas... é difícil... mas a greve já foi deflagrada e, de minha parte, todas as ações que seguem a este fato serão conduzidas por uma única diretriz: prejudicar o mínimo possível os alunos. Até a aula 16, quem sabe com aula!


domingo, 14 de agosto de 2011

Aula14: Politicamente (in)correto

Tenho feito algumas pesquisas sobre os anos 80 para nosso projeto da SEMATEC e sempre me deparo com uma mesma pergunta na cabeça quando termino de ver uma cena ou ouvir uma música da época: “Será que isso seria taxado de preconceituoso ou politicamente incorreto se fosse feito hoje?”
Parece uma bobagem me perguntar isso, mas cada vez mais percebemos que há um anacronismo no comportamento de nossa sociedade. Vamos materializar isto em exemplos começando pelo “inocente” humorístico dos trapalhões (desde os anos 70). Didi, Dedé, Mussum e Zacarias povoavam nosso domingo com piadas e esquetes de humor que satirizavam minorias, enalteciam determinados comportamentos, valorizavam a esperteza em detrimento dos formalismos, etc. Falando assim, com a frieza estúpida das letras, pode parecer um show de horrores, mas o programa (que era excelente aliás) era indicado como livre, sem taxação de faixa etária e assistido por milhares de crianças pelo país a fora.



Outro forte viés neste sentido é o musical. Devemos ressaltar que se tratava de um período de transição política e que tal fato impulsionou uma geração inteira de contestadores, principalmente no movimento pop-rock que se construiu ao longo da citada década. Vamos destacar em especial algumas músicas para entender a questão. Os paulistas do Ultraje a rigor talvez sejam os mestres na arte da contestação debochada e é de sua obra que trago duas músicas: “Sexo!” e “Eu gosto é de mulher!”. Na primeira, temos uma ode ao ato sexual que passa, inicialmente, por uma crítica aberta e direta à censura ainda em vigor no país e segue questionando o que realmente é imoral, comparando grandes problemas da época como a guerra espacial, o terrorismo, a inflação estratosférica e a corrupção com a nudez e o fato de se censurar as referências sexuais na tv e no cinema. Já em “Eu gosto é de mulher!” a letra dialoga com duas questões que poderiam vir a ser criticadas hoje: a exaltação da mulher como um ser desejado e (quem sabe) ser considerada uma letra homofobica, apesar de um meã culpa que Roger faz em alguns versos ao dizer que “tem amigos gays”. O fato é que não sei se as duas não seriam atacadas hoje, como aconteceu com Tiririca com relação a um suposto preconceito racial na música “Veja os cabelos dela”. Os motivos que nos levam a certos tipos de censura hoje, pela centelha luminosa do ser politicamente correto, do estar inserido nos preceitos morais, são mais diversos que os que abastecem a famosa “censura cega”; mas uma “censura da óculos” também não é uma censura?




O que mais tem me assustado em todo este processo é que os novos limites do que se pode e de como se pode dizer tem despertado um conservadorismo voraz que, não me parece tardar, instaurará uma crise de convivência de valores e ideologias na sociedade. Os movimentos históricos nos ensinam que o comportamento do homem se move em ciclos, que vem e vão de acordo com circunstâncias que, muitas vezes, fogem do seu próprio controle. O respeito à diversidade racial, cultural, regional, sexual e religiosa sempre será uma bandeira de todos os cidadãos conscientes e minimamente responsáveis por suas atitudes e gestos, porém, a própria roda da História nos mostra que tal respeito sempre se conquistou por conscientização e nunca por força. Censura é força, gera medo, receio ao segurar a caneta, ao entoar algum canto novo no microfone... enquanto até a mulher maravilha dá uma fugidinha com o superman e ninguém acha ruim, eu vou seguindo no meu ônibus Volta Redonda – Rio, pensando se terá algum problema incluir músicas tão irresponsáveis como “Eu gosto é de mulher!”, “Sexo!”, “Amante profissional”, “Calúnias”, “Meninos e meninos”, “Polícia”, dentre tantas outras, no setlist que alunos executarão como parte do projeto. Por hora é só!


sábado, 6 de agosto de 2011

Aula 13: Todo o romantismo do recomeço!

Nesta semana recomeçaram as aulas no Instituto. Como havia falado por aqui durante as férias, meu desafio deste período está com as plagas literárias do Romantismo e a dureza gramatical das classes de palavras. Por opção, resolvi puxar o fio da meada pela literatura e assim começamos nossos encontros. Tentei, desde o começo, demarcar para e com os alunos que a palavra-chave deste período literário, principalmente no Brasil, é idealização. Sim, idealiza-se o conceito de nação, a identidade nacional, o amor, a mulher, a morte, a liberdade, o herói, a sociedade, etc.
Partindo disto a proposta foi simples: selecionei três excertos literários, dois de Álvares de Azevedo (um de Macário, outro um poema) e um do português Pedro Paixão. Os três trabalhavam com a idealização da mulher e do amor em níveis de significação diferentes e quis começar por este tema por entendê-lo como mais próximo das discussões de suas vidas adolescentes. No primeiro momento vimos uma parte do diálogo entre Macário e Penseroso. Neste momento da peça teatral, Macário acabara de estar com sua mulher amada e conversa com seu amigo Penseroso como as coisas aconteceram e como ele se sente. O diálogo escrito por Álvares de Azevedo irá, então, opor a idealização extrema de Penseroso ao falar do amor e das mulheres de maneira generalista, muito pessoal ao elogio do amor realizado que Macário promoverá ao demonstrar como a mulher próxima, possível pode ser tão ou mais interessante que a intocável, inatingível. No segundo momento lemos o poema "Morena", também de Álvares, em que se percebe sem muito esforço traços de todas as principais características ultrarromanticas, dentre elas a idealização extrema da mulher, do amor e da própria morte. A intenção foi demonstrar que um mesmo conceito pode ser relido pelo mesmo autor por vias diferentes, que nem nos estilos de época existem fórmulas totalmente fechadas. Depois, e por fim, lemos um micro conto (ou seria uma crônica?), de Pedro Paixão intitulada "Por que os amantes morrem", do livro Nos teus braços morreríamos. Neste texto, já dos anos 2000, vimos o amor como perda e suas possíveis reconstituições mais aproximadas da ideia de prazer e desejo, como a mulher, por vezes, vista até mesmo como um produto, que se pode comprar por alguns momentos. O mais curioso desse texto é que mesmo tratando os temas do amor e da mulher de forma muito crua, Pedro Paixão ainda vive em sua escrita uma idealização irremediável que transforma seu micro conto em uma verdadeira elegia ao cotidiano da solidão.
É óbvio que com textos tão profícuos para análise as interpretações mais diversas surgiram, muitas piadas, duplos sentidos, momentos para rir intensamente, outros para refletir sobre as transformações do olhar literário para temas tão comuns ainda hoje (e sempre). Além da alegria das primeiras aulas e das tiradas engraçadas de algumas figuras, é sempre bom reencontrar os alunos, perceber que, aos poucos, vão amadurecendo, tomando consciência da vida (da sua e da abstrata, de todos nós). Não poderia deixar de citar duas pérolas da semana:

Eu pergunto: "Que grande evento aconteceu cem anos depois da independência do Brasil?"
Aluno responde: "O centenário da independência!"

Eu pergunto: "O que acontece quando o Brasil sai da era colonial?"
Aluno responde: "Entra na era Medieval!"

Depois disso, só mesmo sendo Exagerado (manja o computador do Cazuza)!



Especialização I: Começando



Na noite desta terça-feira iniciaram minhas atividades no curso de especialização de História e cultura africana e afro-brasileira. A expectativa de um primeiro dia de aula é sempre muito intensa, principalmente quando seu público reúne profissionais da área educacional, alguns com mais experiência de sala de aula do que você. Medos e ansiedades a parte, o primeiro dia de aula foi muito melhor do que eu esperava. A turma, basicamente formada por historiadores, com dois filósofos, três pedagogas e uma colega da área de letras (por enquanto), enriqueceu bastante as discussões propostas trazendo suas visões de formação acadêmica mescladas ao olhar curioso de leitores. Minha estratégia de propor uma atividade de discussão de poemas como estopim de suas expectativas para o decorrer do curso funcionou  bem e agora posso dizer que tenho definidas as linhas que pretendo seguir durante essa experiência. Iremos trabalhar com a literatura africana de língua portuguesa e com as discussões sobre literatura afro-brasileira com a intenção de demonstrar como o texto literário pode ser um  instrumento de trabalho a mais para a aplicação/discussão de conteúdos em História, Pedagogia, Letras, Filosofia, etc. Pretendo publicar semanalmente no blog as propostas e os “resultados” de tais atividades para que possamos ampliar nosso espaço de debate. Deixo vocês com um dos poemas que geraram mais discussão na aula de terça. Trata-se de “Casamento de conveniência”, do moçambicano Rui Knopfli. Um abraço.


Meus pais não querem que ame
A quem amo.
Pretendem que me case contigo,
Juventina.
Não és boa, nem és má,
Nem bela, nem feia
E dizem-te prendada e virtuosa
Mas, quanto te aborreço!,
Juventina.
Dão-me um automóvel e uma casa
Pra que case contigo,
Juventina.
Tens um nome que te quadra à figura,
Rapariga,
E trazes intacto o selo necessário.
Seremos na vida como dois funcionários públicos
Da mesma repartição
Cujas obrigações obrigam-se a ver-se e a contactar
Diariamente.
Nada mais.
Com a tua estupidez morreremos
de chatice
e levar-te-ei obrigatoriamente
ao cinema, uma vez por semana.
Aceitarás com submissão
Que te mande à merda de quando em vez
E não farás muitas ondas.
Sei que não pedes mais,
É pegar ou largar,
Juventina.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Semana de Planejamento: "Vamos voltar pro segundo tempo com mais garra e fazer o que o professor pediu..."


A semana de planejamento é um estágio preparatório para o semestre seguinte, período em que discutimos questões relevantes à prática docente, à burocracia e à administração da gestão escolar. Essa é uma definição categórica da semana da planejamento, mas, na verdade, ela serve para que possamos reencontrar os amigos, trocar ideias sobre as novas turmas, trocar materiais sobre conteúdos e experiências que já tivemos em outras oportunidades. Planejar vai muito além de simplesmente pôr no papel aquilo que pretendemos realizar durante o período letivo. Sei que tenho conteúdos e certo número de avaliações a realizar com minhas turmas, mas como cada etapa dessa irá acontecer dependerá sempre dos contatos iniciais com cada uma delas. Nada sobrevive a um sorriso mais extenso ou a apatia de um grupo de alunos diante de um pré-planejamento que não funcionou na sala. Eu planejo o básico e espero o que vem.
Nessa de esperar o que vem, nosso diretor geral nos presenteou com mais uma oportunidade de tornar nossas aulas mais dinâmicas e próximas da realidade de nossos alunos: ele instalou um datashow e um microcomputador em todas as salas de aula, eu disse todas. Com este material multimídia sempre ao alcance das mãos o desafio aumenta, já que o aluno desejoso de ter novas experiências de aprendizado em sala de aula irá cobrar mais do professor que ele saiba utilizar tais ferramentas, que tenha certa frequência em seu uso e ainda que o faça de maneira a tornar o conteúdo mais interessante. Eu que sempre fui um grande adepto das novas tecnologias durante as aulas estou com um frio na barriga de ansiedade e de receio. Será um semestre de superação. Tenho duas turmas de um período novo, o terceiro, e terei de trabalhar com conceitos e temas que não lido há pelo menos uns dois anos. É aquela coisa: a gente sabe o que é, como é, mas explicar e transmitir isso exige planejamento, ih, olha a palavra mágica desse post aí de novo. Mas me preparei e tenho certeza de que será um grande período em meio às ideias do Romantismo e os conceitos de classe de palavras.
Na outra ponta do iceberg está o módulo de literaturas africanas e afro-brasileira que ministrarei no Campus São Gonçalo do Instituto. Não será a primeira vez que darei um curso desse tipo, nem mesmo o publico será novidade em minha carreira acadêmica, mas será diferente. Minhas responsabilidades agora são outras, assim como meu conhecimento da disciplina, minhas leituras e opiniões. Estou pensando em um curso leve, mas com densidade acadêmica em que os participantes possam apreender as novidades sem se traumatizarem durante o processo. Além disso, pretendo focar mais nos texto literários para transformar a experiência crítica da turma em exercício de criação interpretativa. Sempre me assustou essa coisa de ler antes os textos críticos e teóricos para só depois mergulhar no texto literário, acho até que essa é uma das responsáveis pelo altíssimo número de plágios que encontramos nos trabalhos acadêmicos de hoje. Esta aventura terá uma coluna específica aqui no blog, sempre que possível e necessário for. Aguardem!
Para além disso, ainda temos a SEMATEC - SUL no mês de outubro e os leitores poderão acompanhar aqui o desenvolvimento do projeto "Ideologia, eu quero uma pra viver!" que pretende discutir porque a nova geração de jovens ainda se utiliza de ícones da década de oitenta trinta anos depois. E o projeto de extensão Palavra Afiada, que vocês vêm acompanhando por aqui desde o primeiro semestre, que irá ter sua culminância de ciclo próximo ao mês de outubro.
Depois de tantos dizeres e projetos que culminam neste segundo semestre cheio de atividades, desafios e ideias, basta acreditar que tudo vai acontecer da melhor maneira possível, que não vai haver greve e que as turmas novas terão o mesmo interesse e entusiasmo das turmas do semestre anterior, turmas que me fizeram confiar mais ainda na nossa profissão. Fiquemos ao som de uma banda que dispensa apresentações, uma banda que cheira a espírito adolescente...


quinta-feira, 21 de julho de 2011

No balanço das férias, um balanço para o segundo semestre

Minhas férias não foram nenhum pouco frustradas, mas não tem como falar de férias sem lembrar deste filme


Todo mundo já ouviu pelo menos uma vez na vida a famosa frase "Professor ganha pouco, mas tem férias duas vezes no ano!". Por mais absurdo que isso possa parecer é verdade. Temos férias como todo trabalhador e o recesso de meio de ano que separa o primeiro semestre do segundo. Sim eu tenho duas férias no ano, e daí? Problema o seu se você não tem! Nessa semana final de recesso de julho (sim, semana que vem temos a aguardada semana de planejamento), aproveitei para arrumar os cursos que darei no próximo semestre, pensar em textos e abordagens que posso utilizar para imprimir um novo ritmo aos conteúdos que estão nos programas. Planejar exige pesquisar e pesquisar é sinônimo que revirar nossas memórias longinquas, do tempo em que nem nós mesmos já lembrávamos. Fotos, textos, escritos em geral, provas... Revirar a criança que fomos faz com que sejamos melhores, tenham certeza. Encontrei alguns pormas que escrevi e sinceramente não sei o porquê; vi provas que elaborei e jamais o faria de novo; fotos de amigos que já não vejo há muitos anos; rastros do que fomos que levam ao que nos tornamos. Toda essa nostalgia nas vésperas do retorno ao trabalho me fez pensar no tempo e em como nossas medidas para ele mudaram tão bruscamente. Há dez anos atrás eu tinha 20 anos, a internet ainda era uma possibilidade sem banda larga expandida como hoje, o video-game da moda era o playstation I, eu estava no segundo ano da faculdade, já lecionava há dois, tinha certeza de que queria ser professor, mas arriscava ser poeta de quando em vez. Dez anos depois tenho um playstation 2 estacionado no rack da sala, pois jogo freneticamente PES 2011 para PC, minha internet além de banda larga é wireless, já qualifiquei meu doutorado e pretendo defendê-lo ano que vem, continuo sendo professor e o poeta que se arriscava quando em vez, hoje escreve auroras no limiar das manhãs, enquanto observo minha esposa dormindo. O segundo semestre está batendo na porta, mas antes dele visitei o porão - quase sem querer. Deixo uma amostra dessa bagunça, no melhor estilo antes e depois:

ANTES


DEPOIS

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Aula 12: Quer um conselho? Só se for de classe...




Após um semestre letivo fechado chega o grande dia: o conselho de classe. Fileiras de alunos nos corredores parando os professores a todo o momento, perguntando a mesma coisa repetidamente: "Professor, eu consegui passar?". Olha, vou confessar que meu lado humano se comove em alguns casos. Vejo pessoas que realmente se dedicaram, ou que perceberam que era necessário fazer isso e empenharam boa parte dos últimos dois meses a apreender algo dos conteúdos e acabam decimalmente desiludidos.
Recentemente discuti nesse blog questões sobre critérios e métodos de avaliação. Trouxe anseios, medos, propostas, dúvidas. falei do que é avaliar pra mim, pensei que lidamos com seres humanos que acreditam em muitas coisas, inclusive na vida. No fundo temos uma guerra de vítimas. Os alunos se sentem vítimas de provas difíceis, de muitos trabalhos, de poucos trabalhos, de décimos, aproximações, etc. Os professores, de seu lado, também se sentem vítimas pois não querem receber a alcunha de algozes, de carrascos, não querem se sentir responsáveis pela reprovação dos alunos. Trata-se de um jogo em que, infelizmente e com raras exceções, as cartas já se apresentam marcadas e o baralho viciado a cada mão. Então, sabendo disso, coordenadores, pedagogos e os próprios professores elaboram um conselho de classe. Uma reunião que busca a compreensão de todos (ou da maioria) para a aprovação/reprovação deste ou daquele aluno. Os argumentos prévios estão estabelecidos, todos se conhecem, sabemos que irá liberar ou não um aluno que pende para os dois lados da ponte, mas estamos lá, firmes, acreditando no que acreditamos para não deixar de acreditar em nós mesmos. Parece filosofia barata, muito barata, mas é verdade.
Nunca quis nem pensei em julgar ninguém, nem acho que um dos lados neste processo esteja errado, o problema reside na normalidade com que certos conceitos e demonstrações desses conceitos funcionam como ferramentas que interferem diretamente na vida de uma ou mais pessoas. Afinal, há professores que julgam desenpenho e interesse dos alunos, mas alguém que faça o mesmo com os professores? Um conselho de classe que deixo sobre estas minhas confusas e pouco findamentadas opiniões sobre aprovação/reprovação é o seguinte: aproveitem as férias que em agosto estamos de volta. Para além, vale conferir o vídeo abaixo:


domingo, 5 de junho de 2011

Aula 11 - Vale ponto, professor?




Há duas semanas atrás, discutiamos em uma reunião institucional métodos e processos de avaliação. Em meio a opiniões diversas, muita discussão (dessas que levam a algum lugar) e brincadeiras, chegamos a conclusão de que avaliar é uma atividade predominantemente subjetiva já que partirá sempre do olhar de dois sujeitos, o que avalia e o que é avaliado. Não importa se os instrumentos avaliativos são tradicionais ou opressores como provas e arguições ou se a avaliação se dá de maneira mais livre, por um processo de acompanhamento contínuo do aluno e de sua aprendizagem, sempre seremos avaliados como cidadãos, profissionais, emocionalmente, etc.


Esta semana se iniciam as avaliações do segundo bimestre. Nossa escola trabalha com um modelo semestral e não com o tradicional calendário de ano letivo. Neste senido, a cada semestre nossos alunos vivem as tensões que a maioria dos outros alunos sentem apenas nos meses de novembro e dezembro. Vejam, não estou falando que eles são prejudicados por isso, mas o sistema semestral faz com que o fantasma da reprovação apareça muito mais cedo que o normal. É o momento em que alunos projetam suas expectativas pessoais e sobre a "bondade" dos seus mestres, enquanto nós professores cumprem seu papel de avaliar (diga-se de passagem, papel ingrato esse). Mas, como ser justo nessa hora? A prova é, ainda, o instrumento de avaliação mais presente e por motivos óbvios: todos os acessos de universidades são por provas; a ascensão profissional dentro de uma grande empresa é por prova; os concursos públicos selecionam servidores por meio de provas. Logo, tendo esta perspectiva futura, nossos alunos de ensino médio não podem ficar tão afastados desta realidade, então, como relacionar a necessidade futura do alunado com novas propostas de avaliação? É difícil´, sabemos. Os alunos, em grande parte, querem apenas passar. Quase todos sonham com a média necessária para que, ao lado de seu nome, vigore uns números pequeninos em tinta azul. No fundo, concordo com eles. Em muitos casos, somos avaliados pelo que menos importa, pelo que menos nos diz o que somos e aí, o que vale mesmo é a nota azul, que sendo seis ou dez tem o mesmo peso na conclusão final: aprovado.


Eu, professor, faço provas ainda. As preparo com certo cuidado em proporcionar o máximo das experiências vividas em sala nas questões, nos textos e mesmo no que espero como resposta. Complemento a prova com trabalhos que buscam explorar a criatividade e a capacidade de produção que os jovens de hoje têm, com tantas ferramentas à sua disposição. Sei que muitos mestres pensam que esta não é a melhor maneira de avaliar, nem a mais eficiente, nem a que melhor observa se o aluno aprendeu (decorou) determinado conteúdo... fazer o quê, ser avaliado talvez seja o maior obstáculo de nosso tempo. Mas difícil mesmo é avaliar.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Aula 10 – Qual é o time? Qual é o time? ... Wildcats!!!!






Há uma semana ocorreu a primeira gincana organizada pelo grêmio estudantil. Quando pensamos neste tipo de evento é impossível não recordarmos de nossa época de colégio, de nossas histórias curiosas e de programas de TV que tanto reproduziram o modelo de competição entre escolas. Pois bem, as coisas ocorreram mesmo por aí, com as devidas restrições orçamentárias e sem as parafernálias e tortas na cara no estilo passa ou repassa. O evento contou com arrecadação de doações e livros; apresentações de dança (na verdade uma só); concurso de vídeos engraçados (só dois inscritos) e um campeonato de fustal inter-classes.
A participação dos alunos e dos professores, além da integração dos funcionários e coordenadores foi fundamental para o bom andamento do evento, com exceção  de um certo juiz improvisado que, digamos, errou a mão ao apitar um jogo e de um certo técnico-professor que resolveu lutar pelo seu time.



 Brincadeiras a parte, o fato é que a gincana foi um evento que abriga os sentimentos e desejos mais próximos do pensamento deste blog: a interação entre os setores e sujeitos participantes do processo de ensino-aprendizagem. É claro que entre o evento se preocupar com isto e tudo ter ocorrido desta forma há um abismo enorme, e o há por vários motivos que vão desde a ocupação do horário das aulas para um evento de caráter lúdico, até o planejamento e engajamento dos alunos de maneira mais atuante. Mas a primeira vez sempre funciona como experiência provocadora para a segunda e a terceira e a quarta e por aí vai. Certamente a gincana do grêmio estudantil do próximo ano/semestre será melhor. O que fico pensando e penso de verdade e se todos a encararão desta maneira. Ser sujeito em qualquer processo educacional exige, antes de qualquer coisa, o respeito do diálogo contínuo e do compreender os desejos e anseios do outro e em processos em que há sujeitos não pode haver níveis hierárquicos de controle.


Ficamos por aqui lembrando de uma implacável cena do passa ou repassa, aquela competição de escolas tão famosa ancorada por Gugu... Vejamos e até a próxima.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Aula 9 - Palavra Afiada parte II



(O estúdio de gravação antes de nossa passagem gloriosa)


Os leitores deste blog já conhecem o projeto Palavra Afiada que comecei a desenvolver com alunos do curso de automação da escola em que leciono. A partir do tema "De heróis, amores e música: um passeio pela literatura", as ideias foram surgindo e logo se pensou em capítulos nos moldes de séries de televisão que contextualizassem e discutissem os modelos de herói e amor ao longo dos tempos e, principalmente, os reflexos de tais modelos em nossos dias.
O primeiro roteiro a ser produzido partiu de uma ideia do aluno Talis Pinho que acabou agradando a todos e sendo desenvolvida pelo grupo, tanto no plano da escrita quanto na representação artística (se é que poderemos chamar nossas encenações dessa forma). O fato é que, com exceção do Samuel, nenhum de nós havia entrado em um estúdio de gravação para representar algo que não era real. Transpor a escrita para a palavra falada, com expressões corporais condizentes e convencimento no tom de voz e na atuação é uma tarefa bastante complicada e nós sofremos com isso. Falo nós, pois também sobrou para este que vos fala dar uma palinha diante das câmeras, coisa de prossifional do sono. Todo este processo de se reunir e discutir ideias sobre um tema e seus possíveis desdobramentos é deveras produtivo e sempre revela talentos e afinidades, porém expor diante de câmeras uma fala que não é sua e que tem de parecer sua a qualuer custo é muito difícil. No fundo, percebemos com a expriência que é muito complicado ser um outro, pensar como um outro, falar como um outro, sentir como um outro. Ser nós mesmo já quase beira a loucura, imagine ser quem não somos. O que me surpreendeu bastante foi o comportamento maduro dos presentes, todos conscientes de que estávamos realizando algo por demais interessante e que não deveria ser levado na bgunça. Por mais brincadeiras que tenhamos feito, piadas e bobagens para aliviar a tensõ de estar em frente às câmeras, tudo teve uma seriedade extrema. Entender que aquilo era um desafio a ser vencido e que era fundamental para que o projeto continuasse no mesmo ritmo foi um pensamento comum, quase velado, uma espécie de pacto intuitivo que fizemos para nos dedicarmos ao extremo.
Gravamos dois depoimentos que serão inseridos ao longo da cena principal. O primeiro traz a visão de amor de um cara da comunidade, que entende que o amor não é algo sagrado e que a monogamia é uma bobagem. Cheio de gírias e de necessidades visuais importantes, o personagem tomou parte do nosso tempo para encontrarmos o tom certo nas filmagens. Já o segundo depoimento tratava da opinião de uma doutora em literatura que explicava brevemente o porquê do sofrimento do jovem em questão com relação ao amor não-correspondido do esquete.
Gravar os depoimentos antes da cena principal nos fez pensar, também, em como a televisão e o cinema trabalham as histórias por partes e que seu resultado final está tão determinado pelo editor das imagens quanto pelos diretores de fotografia e de ação. Enfim, a experiência nos rendeu muitas novas ideias e isso vai será relatado em outros posts, no decorrer dos novos passos do projeto. Por hora, deixamos um pequenino aperitivo do making off gravado aleatoriamente durante o trabalho sério.


terça-feira, 19 de abril de 2011

Aula 8 - É preço!!!!


No dia 04 de março de 2011, escrevia o post “Propaganda apelativa? Apelativa é a linguagem!” que discutia a função apelativa da linguagem, sua utilização pelos publicitários e anunciava a proposta de trabalho do bimestre dos meus alunos de primeiro período. Pois bem, após muitas promessas e falatórios típicos de alunos animados e que querem impressionar o professor e os colegas, os trabalhos foram apresentados no último sábado e não foram poucos os motivos que me fizeram sorrir. Além do humor muito bem utilizado pelos grupos e  pitadas de ironia e sarcasmo a gosto, foi muito legal perceber que eles captaram o espírito do trabalho que era criar e promover um produto, utilizando a função apelativa como viés de convencimento do consumidor.
Todos capricharam em seus vídeos e criações e embutiram nas piadas (nada previsíveis) as características básicas de uma boa propaganda de divulgação de um produto. Pegar o consumidor por apelos financeiros, por necessidades de atualização, ou mesmo pela criatividade de um slogan ou jingle, foram estratégias de quase todos os comerciais produzidos. Como toda proposta de ensino por interação, foi bacana perceber como eles se reconheceram como sujeitos daquele instante na relação ensino-aprendizagem, pois ficou claro que eles apenas lapidaram qualidades que já possuem e nunca tinham pensado em desenvolver. Descobrimos grandes publicitários (aguarde Olivetto), ótimo atores e comediantes de primeira. No mais, creio ter deixado com eles a certeza de que podem desenvolver qualquer atividade por eles mesmos, aproveitando seu conhecimento de mundo e sua leitura sócio-cultural dos espaços da escola e da sociedade. Deixo como aperitivo dois trabalhos que se destacaram, um em cada turma, não por uma questão avaliativa que toma para si os conceitos de erro e acerto, mas por me terem a estrutura quase perfeita ( e o quase é um excesso de zelo epistemológico) de um comercial de tv nos moldes tradicionais. Lembrem-se de que são meninos e meninas entre 14 e 16 anos, com câmeras amadoras, sem cenários elaborados, mas com idéias a mil na cabeça.




sexta-feira, 8 de abril de 2011

Aula 7: "A batalha de Volta Redonda"



Semana passada, durante uma aula sobre novelas de cavalaria e formação da literatura portuguesa, um aluno que havia faltado no dia anterior me entregou um texto acreditando ser um trabalho avaliativo. Tudo porque combinamos, os alunos que ficaram para minha aula e eu, que no dia seguinte diríamos aos alunos que debandaram que houve um trabalho avaliativo e que eles perderam a oportunidade de ganhar alguns décimos preciosos para o fim do bimestre. O mais curioso é que o aluno, produziu um texto sobre a aula que estava correndo, que já não tinha nada mais a ver com a anterior, e sua experiência de escrita revelou uma criatividade - no mínimo - curiosa sobre os conceitos de adaptação e apropriação do passado no presente. Mas, o próprio texto fala melhor por si. Publico então, na íntegra, com a grafia e a autorização do aluno Levi Garuti, seu texto de cavalaria "A batalha de Volta Redonda: o mito e a lenda":

"Conta a lenda que em 1756, Levi, um grande guerreiro, com grande porte, salvava seu exército, com apenas um anel.
Era uma manhã, como outra qualquer, quando o grandiosíssimo guerreiro Levi, foi a igreja para rezar, quando sentiu algo diferente e foi para o banheiro. Quando lá chegou, o padre já estava, e falando para o guerreiro disse: “Vá para a guerra, pois seu talento é grandioso!” e sem nada a perguntar, se retirou.
Voltou para sua casa, almoçou aipim com filé, esperou 2 horas para digestão e começou a chamar seus guerreiros para lutar contra a Vila Brasília.
Marcado foi o duelo na Beira Rio (Retiro), quando lá chegou com seus 299 cavaleiros, já estava a “negada” reunida com mais de cinco mil.
Lá chegando, disse:
- Vocês não podem conosco!
- Hhuahausuahuhsashhuahsaus... vocês são só 299.
- Mas eu, o bonitão malhado, estou aqui!
- Então vamos começar a batalha!
- Vão “bora”!
Depois quando a guerra já estava terminando sobre um guerreiro do exército menor, Levi. Ele teve de lutar contra 4.500 guerreiros e Venceu!
E a multidão não acreditando no que via gritando para Levi:
- Levi! Levi! Levi!
E as mulheres dessa multidão mais precisamente gritaram:
- Lindo! Tesão! Bonito e “gostosão”!
E diz a tradição que o prefeito Neto mandou fazer uma estátua do guerreiro, para ser lembrada em todas as gerações futuras."

Não resta muito a fazer depois disso... Talvez só mesmo ir visitar o monumento em memória aos que morreram na batalha, às margens da avenida Beira-Rio...

quarta-feira, 30 de março de 2011

Aula 6 - A definição do tema, enfim

Pois bem amigos, após um longo recesso por conta de motivos pessoais o blog retorna às suas publicações semanais com uma ótima notícia: foi definido o tema de trabalho de meu projeto de extensão com os alunos. Para quem já acompanha este diário, sabe que falo do projeto Projeto Palavra Afiada, que começo a desenvolver neste semestre com meus alunos no IFRJ- Campus Volta Redonda. Após o processo de seleção e duas reuniões inicias, muito foi discutido e tiramos o seguinte tema: "De heróis, amores e música: um passeio pela literatura". A ideia inicial era fazer um recorte mais específico, mas os próprios alunos sugeriram trabalhar os tres temas juntos por conta de suas ligações lógicas. Apesar de considerar a empreitada no mínimo pretensiosa em um primeiro momento, fui convencido pelo grupo, através das propostas apresentadas que era possível integrar os tres temas ainda que estivessemos no primeiro momento do projeto. Convencido disso e muito animado com as propostas trazidas por eles, posso adiantar que o trabalha será muito divertido e estremamente criativo. Para deixar um gostinho a mais aos leitores, publico o texto oficial de apresentação deste ciclo de pesquisa. Grande abraço a todos.

De heróis, amores e música: um passeio pela literatura

Quem, na infância, nunca idealizou uma figura humana ou sobre-humana que pudesse resolver seus problemas ou, ao menos, ajudar? Quem nunca se fantasiou ou fantasiou seus filhos com roupas coloridas, capas e máscaras que escondiam identidades secretas? Quem nunca sonhou com um amor que fosse perfeito, completo e sustentasse a vida sobre os ombros? Quem nunca viu no humano herói sonhado, o amor que se deseja somado à segurança que existe em se arriscar junto com alguém?
O projeto PALAVRA AFIADA pensou nisso! Pensou, pois os conceitos de amor e de herói nos acompanham desde as primeiras reminiscências da infância. Acompanha-nos e, por isso mesmo, se modificam conosco, ao ponto de nos perguntarmos se nossos heróis são os mesmos de nossos pais, ou como é a nossa maneira de pensar e vivenciar o amor e as relações amorosas. Assim, surge o primeiro ciclo de nosso projeto, buscando refletir sobre a natureza do herói e o sentimento amoroso através dos tempos e das épocas literárias, através de um recorte que prima pelos momentos de transformação de modelos e de representação.
Nesta saga, acompanharemos o herói medieval, repleto de preceitos religiosos e de honra; passaremos ao herói romântico, herdeiro do medieval, mas renovado pelas aspirações sociais de seu tempo; em seguida o realista transitará entre o ideal e o dissimulado, alternando máscaras de acordo com suas necessidades e anseios; o herói modernista surge como um anti-herói, pautado por características diversas e muito contraditórias que evidenciam, quase sempre, um individualismo típico de sua época; por fim, os super-heróis dos quadrinhos, da TV e do cinema, com seus super-poderes e suas identidades secretas, prontos para se sacrificar até o fim pelo bem comum.
No rastro dos heróis sempre surgem grandes histórias de amor que refletem os comportamentos sociais de cada período, alinhavando, assim, um par referencial com o herói. Grandes histórias de amor que geraram guerras na antiguidade clássica, criaram casais imortais na história literária, produziram modelos do sentimento que até hoje discutimos. Noções que passam pelo casamento “arranjado” do romantismo oitocentista e chegam à revolução sexual e ao feminismo do século XX, que ajudaram a reverter lógicas seculares sobre as relações afetuosas entre os indivíduos.
Por fim, é a música que irá servir de fundo para os dois temas discutidos. Vale lembrar que literatura é ritmo, som e escrita e tal composição poderia muito bem ser utilizada para definir a arte da música. Presente na construção dos mitos heróicos e nas grandes histórias de amor, a música irá conduzir e conectar as pontas deste trabalho, arquitetando uma espécie de cenário para as experiências e apresentações a que o projeto se pretende.
Nosso primeiro passeio pela literatura terá a companhia de grandes temas, muitas ideias e toda a criatividade possível. Buscar a interação entre as novas mídias e tais conteúdos acadêmicos a partir do ponto de vista dos próprios alunos será o nosso objetivo, produzindo uma pesquisa séria, com fundamentação, porém de maneira descontraída de caráter experimental.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Aula 5 - Propaganda apelativa? Apelativa é a linguagem!

Que o marketing e as estratégias de propaganda, principalmente televisivas, transformaram a linguagem comunicacional cada vez mais agressiva todos nós já sabemos. Sabemos, também, que a propaganda ganhou muita força com o crescimento do consumo, o fortalecimento do sistema capitalista, etc etc etc. Porém, o que nem todos percebem é que o poder de convencimento que as propagandas tentam disseminar em seus slogans e mensagens é fruto de uma convergência de linguagens (visual, sonora, gestual, verbal) "diabolicamente" articuladas. Se alguns gostam de definir o cinema como uma indústria de sonhos, porque não pensar no mundo publicitário como uma máquina de construir necessidades? Sim, na maioria das vezes a propaganda está ligada a uma estratégia de consumo ou comportamento que interfere diretamente no que pensamos e definimos como prioridades ou objetivos. Por isso é tão impressionante o que a linguagem e, nesse caso específico, sua função apelativa podem construir com a astúcia do gênio humano. Mostrar isso aos alunos foi o ponto de partida para o trabalho deste primeiro bimestre nas turmas de primeiro período.
O conteúdo de funções da linguagem permite muitas possibilidades de aplicação e debate. No período passado, por exemplo, preferi trabalhar com video-clipes para discutir com os alunos como a linguagem verbal, principalmente nas funções emotivas e poéticas das canções, era transposta para a linguagem visual, adaptando a proposta inicial sem se apartar de vez dela. Desta atividade em sala surgiu a avaliação do período que consistia, basicamente, em fotografar cenas do cotidiano de sua cidade ou de sua vida que, de certa forma, "traduzissem" as letras de música que selecionei para os grupos. Agora, a escolha foram os comerciais de televisão. Trabalhamos em sala uma seleção de propagandas (algumas bastane engraçadas, como a do Pintos shopping e a do Guaravita) e discutimos como as linguagens se articulavam com a função apelativa para gerar a mensagem, se ela atingia o interlocutor como o desejado e se cumpria seu papel de "vender" um produto ou uma ideia. Daí surgiu a ideia do novo trabalho para meus ilustres gafanhotos, lembrando aqui do senhor Miyagi: cada grupo vai funcionar como uma equipe de marketing de uma empresa e terá que elaborar um produto novo e sua campanha publicitária. O intuito é despertar a capacidade criativa dos alunos, aliando o conhecimento das funções da linguagem e das linguagens envolvidas.
Estou ansioso para ver os resultados. Os grupos já estão trabalhando e pelo que pude perceber em sala de aula, acho que suas cabecinhas já estão fervilhando de ideias, enquanto a minha gera milhares de expectativas por segundo. Na verdade, acho que isso só acontece porque eu idealizo os trabalhos para meus alunos pensando nos trabalhos que eu gostaria de ter feito na escola. Há um viés muito emotivo quando paro para pensar as atividades e avaliações para minhas turmas, e isso sempre deixa um sabor de dever cumprido quando vejo o que vi após propor esta tarefa: um sorriso no rosto de cada e um olhar de quem imagina mil coisas, ao mesmo tempo.
Deixo para vocês hoje duas propagandas que fizeram grande sucesso nas turmas. A primeira é dos anos oitenta, abusa da função apelativa da linguagem e faz a gente questionar até as leis da física. Trata-se do Pirocoptero e todo seu charme. Reparem no cabelo da mulher quando o menino dispara seu pirocoptero:




O segundo sensibilizou até os meninos mais ogros de nossas fileiras acadêmicas. Valoriza mais a mensagem e faz isso com primor. Merece ser visto e revisto por muitos publicitários em atividade:



No fim, gostaria muito que os alunos pudessem perceber como a linguagem publicitária é capaz de "manipular" nossas necessidades, mas quero que eles percebam isso "de dentro", no papel de quem elabora a propaganda e não com aqueles discursos, muitas vezes hipócritas, de consumo consciente. Vamos ver no que vai dar. Assim que eu souber, eu conto!

quarta-feira, 2 de março de 2011

Aula 4 - Seleção só com Darwin

A última semana foi de estagnação deste blog, sei disso. A proposta de publicar duas vezes a cada sete dias se perdeu em meio às atribulações do doutorado. Não quer dizer que as ideias pararam de fervilhar na cabeça, pelo contrário, estava impaciente para escrever novamente por aqui. Após a experiência do "espelho" relatada no último post, foram muitos os acontecimentos que poderiam proporcionar novas publicações por estas telas, mas quando todas se aculumam em seu colo, é preciso selecionar. Sim, esta foi a palavra da última semana: SELECIONAR. Mas vamos contextualizar um pouco antes de discutir.
Meu projeto de pesquisa como professor no Instituto se chama "Palavra Afiada" e tem como definição mais básica aliar os conteúdos programáticos de literatura e leitura às novas mídias, tão presentes no cotidiano de nossos alunos. Tendo isto em vista, divulguei o projeto nas salas e abri 10 vagas acreditando não preenchê-las por completo. Resultado final: 19 inscritos! Acabei diante de uma difícil dilema: "Ter que selecionar apenas dez". Pensar em um processo de seleção nunca é simples, ainda mais quando se trata de um projeto em que tudo que se quer é criatividade e iniciativa e não conhecimentos específicos pré-existentes. Pois bem, elaborei muitas possíveis ideias para "escolher" os participantes e no final acabei sendo agraciado com a sorte dos professores bem intencionados e só dez inscritos apareceram para a seleção. Sem precisar ter a terrível sensação de dizer não para alguém que se mostrou interessado no que você tem a dizer, a reunião inicial definiu os primeiros caminhos do projeto, pensado em ciclos anuais com culminância no evento oficial do Instituto. Os retardatários aparecem ao longo do dia com justificativas (reais ou não), mas não pude fazer nada. O projeto segue com dez pessoas inscritas até segunda ordem! Nossa próxima reunião será no dia 25 de março e assim que tivermos definições quanto aos temas e métodos de trabalho para este ciclo vou postando por aqui para compartilharmos ideias.
No mais, o recesso de carnaval é a grande moda do momento. Ficaremos sem aulas até o dia 14 de março, quando o Instituto retorna às suas funções normalmente. Tempo sagrado de descanso para organizar um início de ano conturbado, mas que aos poucos vai se ajeitando. No retorno do recesso teremos provas inicias, um trabalho bimestral que já está tirando o sono dos alunos (isso será motivo de outro post), além das mais recentes novidades com relação ao projeto de pesquisa.
Como dica e referência para este post, deixo o aclamado filma francês "O corte" de 2005, que narra a história de um executivo que, após anos de trabalho em uma fábrica de papel, é demitido junto com mais 600 funcionários. Após dois anos de desemprego sem nenhuma perspectiva de recolocação profissional, ele decide colocar anúncios no jornal recrutando profissionais que poderiam ser concorrentes seus por uma vaga no mercado e, após selecionar os mais bem qualificados, vai eliminando-os um a um. Apesar de parecer pesado pela resenha, o filme tem um tom sarcástico e muito irônico que funciona mais como uma crítica à nova configuração do mercado global e ao desemprego que atinge todas as nações do mundo do que propriamente narra a história de um serial killer. Além de tudo, "O corte" mostra como selecionar ou não ser selecionado podem ser atitudes cruéis, chegando até as vias de fato. O Trailer está legenddo em espanhol, mas é possível conseguir locar, comprar ou baixar o filme com legendas em português. Vale conferir!


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Aula 3 - Quem é a pessoa que me olha no espelho?





Após receber os formulários preenchidos, ainda que não tenha dado tempo de fazer uma análise qualitativa do material, ficou perceptível que os novos alunos têm muito em comum com os mais antigos. O que me surpreende bastante nisso tudo é que estamos falando de uma escola técnica com vocação para as áreas de exatas e são muitos os jovens que chegam às nossas salas com inclinação às artes, de um modo geral. Para além das práticas extraclasse, os jovens ainda possuem gostos musicais, cinematográficos e artísticos bastante peculiares. Não estou nem pensando naquela história de subestimar os alunos que discuti no post anterior, mas sim na forma como eles conseguem, à sua maneira, "filtrar"as informações que recebem de todos os lados.
Em uma primeira análise do material, percebi que a internet é uma ferramenta importante para eles, mas não primordial. A maioria elencou a música e a TV como principais escolhas em seu cotidiano. O ritmo musical mais citado é o rock e o rock mais antigo, pouca coisa atual. A TV contribui com programas humorísticos no estilo CQC e Tudo improviso, mas tem grande repercussão nas séries americanas. Boa parte dos entrevistados fazem alguma atividade artística e sugerem uma inserção de tais atividades no Campus. Os filmes de ação ainda imperam no cinema, mas já há grande parte deles citando filmes mais clássicos. Todos demonstram que já leram alguma coisa, ou por obrigação, ou por gosto. Mas o que mais me chamou a atenção foi a pergunta inicial do questionário: "Que palavra o (a) definiria melhor?"
A questão levantou muitas outras questões na cabeça dos alunos, já que se definir é sempre muito mais difícil do que definir o outro. É lógico que nunca podemos afirmar que sabemos quem somos plenamente. Os seres humanos, atravessados pelos avanços sociais e comportamentais, passaram a conter seus instintos em nome de um código de convivência que permite que todos possam compartilhar do mesmo espaço, das mesmas oportunidades (na teoria) e do mesmo status de cidadão. Com isso, guardamos  reações e sentimentos que, ao longo dos anos, se revelam de acordo com cada situação a que nos vemos submetidos. O comportamento humano e suas definições são tão ariscos quanto a própria pergunta do questionário. Imaginem isso posto a jovens entre 14 e 16 anos. A dificuldade de se definir em um palavra não vem apenas do desconhecimento horizontal que temos de nós mesmos, mas, e principalmente hoje, de nos percebermos no mundo pela imagem que os outros fazem de nós. Nos vermos pelos olhos dos outros se tornou tão comum que tomamos atitudes, muitas vezes extremas, para "agradar" as pessoas de nosso convívio social, ou mesmo estabelecer um status dentro do grupo. Por isso, não raro foram os alunos que perguntaram para os amigos e até para mim que palavra melhor os definiria.
Que a internet e as redes sociais ajudaram a consolidar a exposição excessiva de nossas vidas e de nossas intimidades já sabemos, mas talvez ainda não tenhamos mensurado o quanto de nós mesmos se perde neste gesto. Não saber se definir não é necessariamente um produto das novas possibilidades de comunicação, mas ver sua definição mais coerente pelo olhar de outra (s) pessoa (s) revela o tipo de relações sociais que este início de século nos reserva. Há um livro muito interessante de um filósofo/sociólogo contemporâneo polonês chamado Zigmunt Bauman que discute este tema. Trata-se de O amor líquido. Neste livro, o autor trabalha as novas concepções de vínculos emocionais em uma sociedade cada vez mais indivudualista e, contraditoriamente, interligada pelos meios tecnológicos mais modernos, como celulares e internet. Na visão do autor, passamos a desenvolver "relações de bolso", dessas que usamos quando necessário e depois guardamos novamente para recuperá-las apenas em um momento mais oportuno. Tal estratégia nos demonstra a necessidade de sermos múltiplos, para que cada pessoa nos "use" pelo viés que desejar e para que nós possamos "usar" as pessoas como nos for mais conveniente, dependendo da situação. Mas lembrem-se: tudo isso só vale se não se cria laços ou vínculos, logo nem mesmo o olhar do outro consegue nos definir em uma palavra já que nossa denominação (até mesmo nossa auto-denominação) não caberia no singular.
Fica a dica de leitura do livro O amor líquido, publicado no Brasil pela editora Zahar. Quanto aos próximos passos, acompanhem o blog, pois este formulário ainda vai dar o que falar, quero dizer, escrever.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Aula 2 - Conhecendo para descobrir

Hoje terei o primeiro contato de sala de aula com os alunos recém chegados ao Instituto, além de reencontrar os mais antigos. Como de costume, responderemos um formulário bastante despojado que busca uma interação inicial. Tal interação passa, automaticamente, pelos gostos de cada (musical, cinematográfico, comunicacional, etc) para atingir um dos objetivos deste primeiro momento: conhecer o que se pensa que conhece. No período passado, quando iniciei meus trabalhos no IFRJ-VR, executei a mesma atividade e minhas surpresas foram muitas. Percebi que subestimar os alunos é um gesto quase automático nosso, principalmente por já termos vivenciado muitas experiências em que nos decepcionamos. Todos, de certo, já passaram algumas boas horas tendo ideias, pesquisando e desenvolvendo aquela aula que julgava fantástica - a aula que gostaria de ter tido na época da escola - e logo depois teve uma triste decepção por perceber que não agradou ou atingiu os alunos como esperava. Pois é, a ideia da ficha surgiu desta decepção pessoal, con o intuito de dialogar com tal realidade, buscar as preferências e pequenas amostras do cotidiano dos alunos, para daí pensar nos conteúdos e nas aulas interadas às suas necessidades. A conversa está ficando um pouco séria demais neste post e não é minha intenção desenhar cartilhas ou novos/velhos métodos revolucionários de dinamização do ensino. Apenas registro que foi uma experiência muito válida com as turmas do semestre anterior e que irei repetir hoje. Estou ansioso para conhecer os novos alunos e descobrir como a montagem da disciplina poderá se moldar de acordo com suas preferências e realidades. Em um mundo em que estar antenado não significa conhecer de tudo um pouco, mas sim acompanhar as frenéticas transformações sócio-culturais e tecnológicas, ninguém melhor para nos fornecer este hand-out do que nossos alunos. Acho que o título mais coerente para esta aula seria Atualização Docente, por mais controverso que isso possa parecer para algumas pessoas. Por fim, na afliação do pré-aula, deixo os leitores com um poema de Álvaro de Campos - heterônimo de Fernando Pessoa - que creio dialogar um pouco com a nossa prática cotidiana, não só acadêmica, mas e, principalmente, humana. O texto está recitado por Paula Autran, não preciso falar mais nada depois disso...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Aula I - Todos juntos nessa rede social


Há algumas semanas do Oscar e nas vésperas do retorno às aulas, o filme "Rede Social" (Social Network -2010), do diretor David Fincher, foi um interessante achado para iniciar as discussões deste blog. Digo isso, pois há muito tempo não via um filme que pensasse de maneira tão cotidiana o que é esta nova geração e quando digo "cotidiana" penso em como o diretor tratou do assunto sem ter sido obrigado a falar dele. Para quem não conhece a película faço um breve resumo antes de prosseguir: Mark Zuckerberg é um promissor estudante de TI na Universidade de Harvard. Muito habilidoso com computadores, programação e processamento de dados, Zuckerberg desenvolve um programa de ranqueamento das meninas de cada casa universitária com o único intuito de derrubar o sistema operacional central da famosa Universidade americana. A partir de seu sucesso na empreitada, Zuckerberg se torna conhecido no Campus e alguns dos mais ilustres alunos da instituição o procuram. Aqui entram os gêmeos Winklevoss que têm uma idéia rasteira do que poderia ser um site de relacionamentos, porém com códigos fonte fracos e pouca capacidade criativa. Mark, então, tem uma avalanche de idéias e abandona o que os gêmeos haviam pensado para desenvolver seu próprio site com ajuda e patrocínio do amigo brasileiro Eduardo Saverin. Surgia o Facebook. Daí para frente, a frase tema do filme responde o que acontecerá: "você não consegue 500 milhões de amigos sem fazer alguns inimigos."
A narrativa - quase em tom jornalístico, com muitos flashbacks, diálogos afiados e sempre muito rápidos - apresenta uma dinâmica típica dos jovens das duas últimas gerações, repleta de emoções simples, envolvimentos curtos, novas concepções de sentimentos como amizade e amor, desejo por milhões de dólares e desprendimentos quase niilisticos. Um retrato de uma geração que funciona por manchetes, que tem uma noção de tempo muito peculiar e desenvolve relações - virtuais e pessoais - cada vez mais efêmeras e utilitárias. Por isso, para além das desventuras que envolvem a criação do famoso site Facebook, o filme retrata jovens que, inseridos nesta nova cartografia, agem e se pensam por uma estética individualista, na qual o que interessa não é o dinheiro ou a fama, mas o que cada um entende como importante. Para Mark o "importante" não era dinheiro nem fama, mas sim o orgulho e a satisfação pessoal de ter desenvolvido uma ferramenta de comunicação utilizada por milhares de pessoas no mundo. Como o próprio personagem repete algumas vezes para o amigo Saverin (que quer gerar renda através do site) durante o filme: "isso não é um negócio!".
E em que ponto isso toca diretamente em nossa prática discente? Ora, lidamos todos os dias com jovens pertencentes a esta nova geração e na grande maioria das vezes não compreendemos seus anseios e comportamento, pois criamos alguns esteriotipos relacionados à internet e ao esvaziamento cultural proveniente da rede. Não é por aí. Rede Social nos mostra que etsa geração possui uma leitura de mundo diferente da nossa por motivos óbvios e que nosso trabalho está mais ligado no reconhecer tais potencialidades e diferenças do que em um reenquadramento nos "moldes escolásticos". A narrativa que discute quem realmente teve a idéia do que veio a se tornar no site de relacionamentos mais popular do mundo, apenas funciona como um cenário para discutir quem são e o que desejam os jovens de hoje, quais são seus objetivos e o que lhes serve como backup para recomeçar a cada dia. Para além de um interessante filme, desde sua concepção até seu resultado final, Rede Social nos suscita uma pergunta insistente que fica martelando no cantinho do cérebro, naquele que funciona bem e nos diz todos os dias que somos professores: "como assimilar os anseios desta geração?" O que talvez soe mais irônico em não termos uma resposta que nos convença de todo é a sensação que a última cena do filme provoca... vale a pena conferir.





segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Semanas de Planejamento Pedagógico I

Todos sabemos que o magistério é uma profissão um tanto quanto apaixonante. O adjetivo serve de muitas maneiras no contexto em que o inserimos. Muitas, pois a profissão é apaixonante por depender de muita paixão de quem escolhe seguí-la e não estamos pensando apenas na má remuneração financeira que grande parte dos professores encara. A paixão está em um território muito além do dinheiro, fronteiriço com as descobertas e experiências que o professor pode (e deve) compartilhar com seus alunos em qualquer nível. Por outro lado, podemos ler este "apaixonante" como uma descrição de todo um processo de elaboração que vai desde a escolha do conteúdo até a maneira como se pode apresentá-lo a uma turma, ou mesmo a um aluno em específico.
Com o caminho delimitado, este blog surge como o acostamento de uma estrada. um lugar no qual podemos estacionar, acertar alguns problemas, voltar para a rota, ou apenas parar para comprar bananas. O Diário de Classe que ora apresento, debaterá, ao longo do ano letivo, soluções, planejamentos e abordagens utilizadas ou imaginadas para transmitir conteúdos programáticos de Literaturas em língua portguesa, Teoria literária, Redação, Língua portuguesa e artes em geral. A intenção, se assim podemos chamar, é promover uma troca de ideias com os leitores sobre tais experiências para, aliadas as opiniões, construirmos um caleidoscópio de opções sobre os temas debatidos. Sobrará espaço para comentários, situações engraçadas, dicas culturais e discussões de leituras, além, é claro, de um toque especial dado por convidados. A ideia inicial é que tenhamos dois posts semanais fixos e algum extra para casos excepcionais. A princípio o Diário de Classe será atualizado todas as segundas e quintas, com aviso prévio em caso de alguma mudança.
Desta maneira, já com o blog apresentado, espero que este diário virtual seja uma ferramenta de aprendizado e diversão, assim como enxergo a sala de aula sempre que entro para mais um dia de trabalho. Por hora, neste planejamento pedagógico, vamos ficando por aqui, mas sempre buscando além do que se vê.