quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Aula 3 - Quem é a pessoa que me olha no espelho?





Após receber os formulários preenchidos, ainda que não tenha dado tempo de fazer uma análise qualitativa do material, ficou perceptível que os novos alunos têm muito em comum com os mais antigos. O que me surpreende bastante nisso tudo é que estamos falando de uma escola técnica com vocação para as áreas de exatas e são muitos os jovens que chegam às nossas salas com inclinação às artes, de um modo geral. Para além das práticas extraclasse, os jovens ainda possuem gostos musicais, cinematográficos e artísticos bastante peculiares. Não estou nem pensando naquela história de subestimar os alunos que discuti no post anterior, mas sim na forma como eles conseguem, à sua maneira, "filtrar"as informações que recebem de todos os lados.
Em uma primeira análise do material, percebi que a internet é uma ferramenta importante para eles, mas não primordial. A maioria elencou a música e a TV como principais escolhas em seu cotidiano. O ritmo musical mais citado é o rock e o rock mais antigo, pouca coisa atual. A TV contribui com programas humorísticos no estilo CQC e Tudo improviso, mas tem grande repercussão nas séries americanas. Boa parte dos entrevistados fazem alguma atividade artística e sugerem uma inserção de tais atividades no Campus. Os filmes de ação ainda imperam no cinema, mas já há grande parte deles citando filmes mais clássicos. Todos demonstram que já leram alguma coisa, ou por obrigação, ou por gosto. Mas o que mais me chamou a atenção foi a pergunta inicial do questionário: "Que palavra o (a) definiria melhor?"
A questão levantou muitas outras questões na cabeça dos alunos, já que se definir é sempre muito mais difícil do que definir o outro. É lógico que nunca podemos afirmar que sabemos quem somos plenamente. Os seres humanos, atravessados pelos avanços sociais e comportamentais, passaram a conter seus instintos em nome de um código de convivência que permite que todos possam compartilhar do mesmo espaço, das mesmas oportunidades (na teoria) e do mesmo status de cidadão. Com isso, guardamos  reações e sentimentos que, ao longo dos anos, se revelam de acordo com cada situação a que nos vemos submetidos. O comportamento humano e suas definições são tão ariscos quanto a própria pergunta do questionário. Imaginem isso posto a jovens entre 14 e 16 anos. A dificuldade de se definir em um palavra não vem apenas do desconhecimento horizontal que temos de nós mesmos, mas, e principalmente hoje, de nos percebermos no mundo pela imagem que os outros fazem de nós. Nos vermos pelos olhos dos outros se tornou tão comum que tomamos atitudes, muitas vezes extremas, para "agradar" as pessoas de nosso convívio social, ou mesmo estabelecer um status dentro do grupo. Por isso, não raro foram os alunos que perguntaram para os amigos e até para mim que palavra melhor os definiria.
Que a internet e as redes sociais ajudaram a consolidar a exposição excessiva de nossas vidas e de nossas intimidades já sabemos, mas talvez ainda não tenhamos mensurado o quanto de nós mesmos se perde neste gesto. Não saber se definir não é necessariamente um produto das novas possibilidades de comunicação, mas ver sua definição mais coerente pelo olhar de outra (s) pessoa (s) revela o tipo de relações sociais que este início de século nos reserva. Há um livro muito interessante de um filósofo/sociólogo contemporâneo polonês chamado Zigmunt Bauman que discute este tema. Trata-se de O amor líquido. Neste livro, o autor trabalha as novas concepções de vínculos emocionais em uma sociedade cada vez mais indivudualista e, contraditoriamente, interligada pelos meios tecnológicos mais modernos, como celulares e internet. Na visão do autor, passamos a desenvolver "relações de bolso", dessas que usamos quando necessário e depois guardamos novamente para recuperá-las apenas em um momento mais oportuno. Tal estratégia nos demonstra a necessidade de sermos múltiplos, para que cada pessoa nos "use" pelo viés que desejar e para que nós possamos "usar" as pessoas como nos for mais conveniente, dependendo da situação. Mas lembrem-se: tudo isso só vale se não se cria laços ou vínculos, logo nem mesmo o olhar do outro consegue nos definir em uma palavra já que nossa denominação (até mesmo nossa auto-denominação) não caberia no singular.
Fica a dica de leitura do livro O amor líquido, publicado no Brasil pela editora Zahar. Quanto aos próximos passos, acompanhem o blog, pois este formulário ainda vai dar o que falar, quero dizer, escrever.

2 comentários:

  1. Hey,hey
    Acompanhando o blog...
    O livro parece ser mto interessante, vou procurar.
    Saudades.

    Bjoks

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  2. Otavio,
    Gostei muito do post. Talvez porque tento, a cada dia, realizar o exerício de me definir em uma palavra. Ultimamente, tenho encontrado uma com tal constância, que acredito que deva ser mesmo minha verdade essencial ( isso existe?).
    Quanto ao fato de nos preocuparmos com o olhar dos outros, creio que isso, apesar de bem anterior ao uso de novas tecnlogias, vem se acirrando com a mesma velocidade destas, exatamente pelo que você mencionou: parece que precisamos mesmo nos reiventar a cada instante para nos adequar a cada situação da vida. Baumann me parece cheio de razão, mas eu levo o debate para um tempo um pouco mais distante: o dilme entre Parmênides e Heráclito. Estaríamos mesmo sempre diante de um rio diferente? Não sei a resposta, mas com certeza O microcosmos do seu alunado poderá nos ajudar a pensar nisso.
    beijocas,
    Re

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