quarta-feira, 30 de março de 2011

Aula 6 - A definição do tema, enfim

Pois bem amigos, após um longo recesso por conta de motivos pessoais o blog retorna às suas publicações semanais com uma ótima notícia: foi definido o tema de trabalho de meu projeto de extensão com os alunos. Para quem já acompanha este diário, sabe que falo do projeto Projeto Palavra Afiada, que começo a desenvolver neste semestre com meus alunos no IFRJ- Campus Volta Redonda. Após o processo de seleção e duas reuniões inicias, muito foi discutido e tiramos o seguinte tema: "De heróis, amores e música: um passeio pela literatura". A ideia inicial era fazer um recorte mais específico, mas os próprios alunos sugeriram trabalhar os tres temas juntos por conta de suas ligações lógicas. Apesar de considerar a empreitada no mínimo pretensiosa em um primeiro momento, fui convencido pelo grupo, através das propostas apresentadas que era possível integrar os tres temas ainda que estivessemos no primeiro momento do projeto. Convencido disso e muito animado com as propostas trazidas por eles, posso adiantar que o trabalha será muito divertido e estremamente criativo. Para deixar um gostinho a mais aos leitores, publico o texto oficial de apresentação deste ciclo de pesquisa. Grande abraço a todos.

De heróis, amores e música: um passeio pela literatura

Quem, na infância, nunca idealizou uma figura humana ou sobre-humana que pudesse resolver seus problemas ou, ao menos, ajudar? Quem nunca se fantasiou ou fantasiou seus filhos com roupas coloridas, capas e máscaras que escondiam identidades secretas? Quem nunca sonhou com um amor que fosse perfeito, completo e sustentasse a vida sobre os ombros? Quem nunca viu no humano herói sonhado, o amor que se deseja somado à segurança que existe em se arriscar junto com alguém?
O projeto PALAVRA AFIADA pensou nisso! Pensou, pois os conceitos de amor e de herói nos acompanham desde as primeiras reminiscências da infância. Acompanha-nos e, por isso mesmo, se modificam conosco, ao ponto de nos perguntarmos se nossos heróis são os mesmos de nossos pais, ou como é a nossa maneira de pensar e vivenciar o amor e as relações amorosas. Assim, surge o primeiro ciclo de nosso projeto, buscando refletir sobre a natureza do herói e o sentimento amoroso através dos tempos e das épocas literárias, através de um recorte que prima pelos momentos de transformação de modelos e de representação.
Nesta saga, acompanharemos o herói medieval, repleto de preceitos religiosos e de honra; passaremos ao herói romântico, herdeiro do medieval, mas renovado pelas aspirações sociais de seu tempo; em seguida o realista transitará entre o ideal e o dissimulado, alternando máscaras de acordo com suas necessidades e anseios; o herói modernista surge como um anti-herói, pautado por características diversas e muito contraditórias que evidenciam, quase sempre, um individualismo típico de sua época; por fim, os super-heróis dos quadrinhos, da TV e do cinema, com seus super-poderes e suas identidades secretas, prontos para se sacrificar até o fim pelo bem comum.
No rastro dos heróis sempre surgem grandes histórias de amor que refletem os comportamentos sociais de cada período, alinhavando, assim, um par referencial com o herói. Grandes histórias de amor que geraram guerras na antiguidade clássica, criaram casais imortais na história literária, produziram modelos do sentimento que até hoje discutimos. Noções que passam pelo casamento “arranjado” do romantismo oitocentista e chegam à revolução sexual e ao feminismo do século XX, que ajudaram a reverter lógicas seculares sobre as relações afetuosas entre os indivíduos.
Por fim, é a música que irá servir de fundo para os dois temas discutidos. Vale lembrar que literatura é ritmo, som e escrita e tal composição poderia muito bem ser utilizada para definir a arte da música. Presente na construção dos mitos heróicos e nas grandes histórias de amor, a música irá conduzir e conectar as pontas deste trabalho, arquitetando uma espécie de cenário para as experiências e apresentações a que o projeto se pretende.
Nosso primeiro passeio pela literatura terá a companhia de grandes temas, muitas ideias e toda a criatividade possível. Buscar a interação entre as novas mídias e tais conteúdos acadêmicos a partir do ponto de vista dos próprios alunos será o nosso objetivo, produzindo uma pesquisa séria, com fundamentação, porém de maneira descontraída de caráter experimental.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Aula 5 - Propaganda apelativa? Apelativa é a linguagem!

Que o marketing e as estratégias de propaganda, principalmente televisivas, transformaram a linguagem comunicacional cada vez mais agressiva todos nós já sabemos. Sabemos, também, que a propaganda ganhou muita força com o crescimento do consumo, o fortalecimento do sistema capitalista, etc etc etc. Porém, o que nem todos percebem é que o poder de convencimento que as propagandas tentam disseminar em seus slogans e mensagens é fruto de uma convergência de linguagens (visual, sonora, gestual, verbal) "diabolicamente" articuladas. Se alguns gostam de definir o cinema como uma indústria de sonhos, porque não pensar no mundo publicitário como uma máquina de construir necessidades? Sim, na maioria das vezes a propaganda está ligada a uma estratégia de consumo ou comportamento que interfere diretamente no que pensamos e definimos como prioridades ou objetivos. Por isso é tão impressionante o que a linguagem e, nesse caso específico, sua função apelativa podem construir com a astúcia do gênio humano. Mostrar isso aos alunos foi o ponto de partida para o trabalho deste primeiro bimestre nas turmas de primeiro período.
O conteúdo de funções da linguagem permite muitas possibilidades de aplicação e debate. No período passado, por exemplo, preferi trabalhar com video-clipes para discutir com os alunos como a linguagem verbal, principalmente nas funções emotivas e poéticas das canções, era transposta para a linguagem visual, adaptando a proposta inicial sem se apartar de vez dela. Desta atividade em sala surgiu a avaliação do período que consistia, basicamente, em fotografar cenas do cotidiano de sua cidade ou de sua vida que, de certa forma, "traduzissem" as letras de música que selecionei para os grupos. Agora, a escolha foram os comerciais de televisão. Trabalhamos em sala uma seleção de propagandas (algumas bastane engraçadas, como a do Pintos shopping e a do Guaravita) e discutimos como as linguagens se articulavam com a função apelativa para gerar a mensagem, se ela atingia o interlocutor como o desejado e se cumpria seu papel de "vender" um produto ou uma ideia. Daí surgiu a ideia do novo trabalho para meus ilustres gafanhotos, lembrando aqui do senhor Miyagi: cada grupo vai funcionar como uma equipe de marketing de uma empresa e terá que elaborar um produto novo e sua campanha publicitária. O intuito é despertar a capacidade criativa dos alunos, aliando o conhecimento das funções da linguagem e das linguagens envolvidas.
Estou ansioso para ver os resultados. Os grupos já estão trabalhando e pelo que pude perceber em sala de aula, acho que suas cabecinhas já estão fervilhando de ideias, enquanto a minha gera milhares de expectativas por segundo. Na verdade, acho que isso só acontece porque eu idealizo os trabalhos para meus alunos pensando nos trabalhos que eu gostaria de ter feito na escola. Há um viés muito emotivo quando paro para pensar as atividades e avaliações para minhas turmas, e isso sempre deixa um sabor de dever cumprido quando vejo o que vi após propor esta tarefa: um sorriso no rosto de cada e um olhar de quem imagina mil coisas, ao mesmo tempo.
Deixo para vocês hoje duas propagandas que fizeram grande sucesso nas turmas. A primeira é dos anos oitenta, abusa da função apelativa da linguagem e faz a gente questionar até as leis da física. Trata-se do Pirocoptero e todo seu charme. Reparem no cabelo da mulher quando o menino dispara seu pirocoptero:




O segundo sensibilizou até os meninos mais ogros de nossas fileiras acadêmicas. Valoriza mais a mensagem e faz isso com primor. Merece ser visto e revisto por muitos publicitários em atividade:



No fim, gostaria muito que os alunos pudessem perceber como a linguagem publicitária é capaz de "manipular" nossas necessidades, mas quero que eles percebam isso "de dentro", no papel de quem elabora a propaganda e não com aqueles discursos, muitas vezes hipócritas, de consumo consciente. Vamos ver no que vai dar. Assim que eu souber, eu conto!

quarta-feira, 2 de março de 2011

Aula 4 - Seleção só com Darwin

A última semana foi de estagnação deste blog, sei disso. A proposta de publicar duas vezes a cada sete dias se perdeu em meio às atribulações do doutorado. Não quer dizer que as ideias pararam de fervilhar na cabeça, pelo contrário, estava impaciente para escrever novamente por aqui. Após a experiência do "espelho" relatada no último post, foram muitos os acontecimentos que poderiam proporcionar novas publicações por estas telas, mas quando todas se aculumam em seu colo, é preciso selecionar. Sim, esta foi a palavra da última semana: SELECIONAR. Mas vamos contextualizar um pouco antes de discutir.
Meu projeto de pesquisa como professor no Instituto se chama "Palavra Afiada" e tem como definição mais básica aliar os conteúdos programáticos de literatura e leitura às novas mídias, tão presentes no cotidiano de nossos alunos. Tendo isto em vista, divulguei o projeto nas salas e abri 10 vagas acreditando não preenchê-las por completo. Resultado final: 19 inscritos! Acabei diante de uma difícil dilema: "Ter que selecionar apenas dez". Pensar em um processo de seleção nunca é simples, ainda mais quando se trata de um projeto em que tudo que se quer é criatividade e iniciativa e não conhecimentos específicos pré-existentes. Pois bem, elaborei muitas possíveis ideias para "escolher" os participantes e no final acabei sendo agraciado com a sorte dos professores bem intencionados e só dez inscritos apareceram para a seleção. Sem precisar ter a terrível sensação de dizer não para alguém que se mostrou interessado no que você tem a dizer, a reunião inicial definiu os primeiros caminhos do projeto, pensado em ciclos anuais com culminância no evento oficial do Instituto. Os retardatários aparecem ao longo do dia com justificativas (reais ou não), mas não pude fazer nada. O projeto segue com dez pessoas inscritas até segunda ordem! Nossa próxima reunião será no dia 25 de março e assim que tivermos definições quanto aos temas e métodos de trabalho para este ciclo vou postando por aqui para compartilharmos ideias.
No mais, o recesso de carnaval é a grande moda do momento. Ficaremos sem aulas até o dia 14 de março, quando o Instituto retorna às suas funções normalmente. Tempo sagrado de descanso para organizar um início de ano conturbado, mas que aos poucos vai se ajeitando. No retorno do recesso teremos provas inicias, um trabalho bimestral que já está tirando o sono dos alunos (isso será motivo de outro post), além das mais recentes novidades com relação ao projeto de pesquisa.
Como dica e referência para este post, deixo o aclamado filma francês "O corte" de 2005, que narra a história de um executivo que, após anos de trabalho em uma fábrica de papel, é demitido junto com mais 600 funcionários. Após dois anos de desemprego sem nenhuma perspectiva de recolocação profissional, ele decide colocar anúncios no jornal recrutando profissionais que poderiam ser concorrentes seus por uma vaga no mercado e, após selecionar os mais bem qualificados, vai eliminando-os um a um. Apesar de parecer pesado pela resenha, o filme tem um tom sarcástico e muito irônico que funciona mais como uma crítica à nova configuração do mercado global e ao desemprego que atinge todas as nações do mundo do que propriamente narra a história de um serial killer. Além de tudo, "O corte" mostra como selecionar ou não ser selecionado podem ser atitudes cruéis, chegando até as vias de fato. O Trailer está legenddo em espanhol, mas é possível conseguir locar, comprar ou baixar o filme com legendas em português. Vale conferir!