domingo, 14 de agosto de 2011

Aula14: Politicamente (in)correto

Tenho feito algumas pesquisas sobre os anos 80 para nosso projeto da SEMATEC e sempre me deparo com uma mesma pergunta na cabeça quando termino de ver uma cena ou ouvir uma música da época: “Será que isso seria taxado de preconceituoso ou politicamente incorreto se fosse feito hoje?”
Parece uma bobagem me perguntar isso, mas cada vez mais percebemos que há um anacronismo no comportamento de nossa sociedade. Vamos materializar isto em exemplos começando pelo “inocente” humorístico dos trapalhões (desde os anos 70). Didi, Dedé, Mussum e Zacarias povoavam nosso domingo com piadas e esquetes de humor que satirizavam minorias, enalteciam determinados comportamentos, valorizavam a esperteza em detrimento dos formalismos, etc. Falando assim, com a frieza estúpida das letras, pode parecer um show de horrores, mas o programa (que era excelente aliás) era indicado como livre, sem taxação de faixa etária e assistido por milhares de crianças pelo país a fora.



Outro forte viés neste sentido é o musical. Devemos ressaltar que se tratava de um período de transição política e que tal fato impulsionou uma geração inteira de contestadores, principalmente no movimento pop-rock que se construiu ao longo da citada década. Vamos destacar em especial algumas músicas para entender a questão. Os paulistas do Ultraje a rigor talvez sejam os mestres na arte da contestação debochada e é de sua obra que trago duas músicas: “Sexo!” e “Eu gosto é de mulher!”. Na primeira, temos uma ode ao ato sexual que passa, inicialmente, por uma crítica aberta e direta à censura ainda em vigor no país e segue questionando o que realmente é imoral, comparando grandes problemas da época como a guerra espacial, o terrorismo, a inflação estratosférica e a corrupção com a nudez e o fato de se censurar as referências sexuais na tv e no cinema. Já em “Eu gosto é de mulher!” a letra dialoga com duas questões que poderiam vir a ser criticadas hoje: a exaltação da mulher como um ser desejado e (quem sabe) ser considerada uma letra homofobica, apesar de um meã culpa que Roger faz em alguns versos ao dizer que “tem amigos gays”. O fato é que não sei se as duas não seriam atacadas hoje, como aconteceu com Tiririca com relação a um suposto preconceito racial na música “Veja os cabelos dela”. Os motivos que nos levam a certos tipos de censura hoje, pela centelha luminosa do ser politicamente correto, do estar inserido nos preceitos morais, são mais diversos que os que abastecem a famosa “censura cega”; mas uma “censura da óculos” também não é uma censura?




O que mais tem me assustado em todo este processo é que os novos limites do que se pode e de como se pode dizer tem despertado um conservadorismo voraz que, não me parece tardar, instaurará uma crise de convivência de valores e ideologias na sociedade. Os movimentos históricos nos ensinam que o comportamento do homem se move em ciclos, que vem e vão de acordo com circunstâncias que, muitas vezes, fogem do seu próprio controle. O respeito à diversidade racial, cultural, regional, sexual e religiosa sempre será uma bandeira de todos os cidadãos conscientes e minimamente responsáveis por suas atitudes e gestos, porém, a própria roda da História nos mostra que tal respeito sempre se conquistou por conscientização e nunca por força. Censura é força, gera medo, receio ao segurar a caneta, ao entoar algum canto novo no microfone... enquanto até a mulher maravilha dá uma fugidinha com o superman e ninguém acha ruim, eu vou seguindo no meu ônibus Volta Redonda – Rio, pensando se terá algum problema incluir músicas tão irresponsáveis como “Eu gosto é de mulher!”, “Sexo!”, “Amante profissional”, “Calúnias”, “Meninos e meninos”, “Polícia”, dentre tantas outras, no setlist que alunos executarão como parte do projeto. Por hora é só!


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